A INFLUENCIA DA MULHER NOS GRANDES ESCRIPTORES

A INFLUENCIA DA MULHER NOS GRANDES ESCRIPTORES

Publicado na Folha da Manhã, quarta-feira, 16 de junho de 1926


Neste texto foi mantida a grafia original

A mulher, depreciada por Schopenhauer, satyrizada por Oscar Wilde e enaltecida por Lamartine, exerceu sempre um influxo poderoso na vida dos cultores da poesia, da musica, da pintura. Dante fez de Beatriz uma encarnação sublime para vigorizar suas concepções. Sua benefica influencia deitou amor e luz nos poemas do excelso italiano, como o fizera Laura, a mulher impossivel de Pretarcha, a chimerica amante em cujo altar depositou o poeta as melhores flores de sua vida. Greuze, o Moliére da pintura, teve em sua adolescencia uma musa inattingivel – a esposa do seu mestre, Grétry, a quem adorou em segredo, com toda a sua exquisita sensibilidade; buscava os signaes que deixavam seus pés para beijal-os e acariciava os moveis onde roçára as suas vestes. Foi um amor enfermiço, inconfesso, que ficou em sua alma como uma ferida sempre aberta. O quadro “Mãe bem amada” synthetiza o seu grande Ideal. Mas se essa chimera o alentou, uma paixão outra desgraçou-o mais tarde. Depois de triumphar em Tournus, em Lyon, em Paris e em Roma, enamorou-se da filha de um livreiro – Babuti – e casou-se com ella. E pintou o “Pae de familia”, obra prima. Mas a infidelidade da esposa amargurou-lhe o resto da vida. E seus quadros, antes inspirados pela senhora do seu amor, não mais alcançaram altos preços e foram mesmo recusados no mercado de Paris! Georges Sand foi a inspiradora de Chopin. Sob a illusão do seu amor, elle fez as suas melhores composições. A celebre novellista franceza exerceu tambem uma influencia, desta vez tragica, sobre o espirito de Alfredo de Musset, o cavalheiro favorito das damas do seu tempo. Tudo ia admiravelmente bem, quando um medico italiano, Pagello, enamorou-se da escriptora e exigiu que abandonasse o poeta. Foi para Musset um abysmo de miseria e soledade. Entregou-se ao alcool, passando a residir nas mais immundas tabernas de Paris. Aurora Dupin tentou reconquistar o amor de Musset, mas nem ella, nem a propria Georges Sand, conseguiram evitar que o poeta fosse deixando a vida no fundo dos copos. Musset chegou mesmo a tocar a escriptora de casa, quando a encontrou, um dia, posta de joelhos, a implorar o seu amor. Henrique Adine, poeta allemão, casou-se com uma modista franceza, mulher frivola e cheia de perfidia, que se ria dos seus versos e que declarava a quem quizesse ouvir que o melhor modo de combater a insomnia era ouvir um verso do marido. Carlos Baudelaire teve uma musa repellente – Joanna Duval, a sua Venus de ebano. Era uma multa ébria, analphabeta e perversa. Baudelaire adquiriu os seus vicios, creando fama de demonio perigoso. Espronceda encontrou em Thereza Mancha o seu ideal. Afastou-se de Portugal levando juras de amor. Mas, ao regressar, encontrou-a casada. Roubou-a de casa, mas tempos depois ella o abandonou-o, deixando-o em miseria de espirito. E foi philosophando sobre a morte que poude reelevar o espirito. Poe casou-se com Virginia, sua prima tuberculosa. Essa foi abnegada, summamente sentimental. Tratou do poeta com extrema doçura, mas não conseguiu tiral-o das garras do alcool. E Edgard Poe morreu em delirio tremens, sorrindo. Nelle o alcool poude mais que a mulher.


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