A linguagem da televisão

A linguagem da televisão

fonte:Jornal do Brasil 23/02/2004

por:Fernando Barbosa Lima

Emoção é fundamental. Um jogo de futebol, gravado em VT, não dá mais do que 5% de audiência. O mesmo jogo, ao vivo, dará certamente, mais de 30%. As grandes campeãs de audiência na televisão são as novelas que muitas vezes conseguem fazer o nosso povo rir e chorar num mesmo capítulo. Quanto mais emocionante,mais público. O mesmo acontece com o jornalismo: quando ele está narrando um assunto sensacional ou profundamente humano, ganha um imenso público. Se o jornalismo transmite um grande acontecimento, ao vivo, a audiência é total. Basta citar o 11 de setembro, o incêndio do Joelma, a prisão do Beira-Mar ou as crianças da Candelária.

Já nos programas de entrevistas, por mais inteligentes que possam ser, a audiência é sempre menor, qualificada. São programas racionais. Inteligentes mas sem emoção. Não são programas para o povão. Eles atingem as classes ”A”, ”B” e ”C”. A racionalidade não representa a linguagem da TV, que é um veículo frio que só conquista um grande público quando consegue criar vida e emocionar. Até nos comerciais a emoção é muito importante. Quem não se lembra do ”meu primeiro soutien” ou dos bichinhos da Parmalat?

         O Ratinho apela sempre para a emoção, por mais barata que seja. O que é o Show do Milhão? E o Chacrinha jogando bacalhau no auditório e dizendo que quem não se comunica (quem não consegue emocionar) se trumbica? E o Big Brother?

Nas eleições, a importância da emoção é fundamental. Jânio Quadros, cheio de caspas, brandindo a vassoura, um candidato que parecia ter saído do manicômio.Brizola defendendo, lá do Rio Grande, a legalidade e desafiando os militares.Collor dizendo que era o caçador de marajás, o candidato dos descamisados. JK desenhando um Brasil moderno onde cinco anos iriam valer 50. Fernando Henrique e o Plano Real, a esperança de uma vida melhor para cada brasileiro, sem inflação. Nas últimas eleições tivemos um exemplo muito claro da importância fundamental da emoção na TV.

         Os programas de Lula vendiam a idéia de que mudando o país a gente seria muito mais feliz, o Brasil seria melhor. Foram bons programas, todos com emoção. O clip do garoto fazendo um discurso, as crianças segurando as estrelas do PT, as mulheres grávidas caminhando no campo e Lula, junto com o povo. Tudo isso desenhava, com emoção, um país melhor para todos.

         Os programas de Serra, que tinham tanta coisa para mostrar e emocionar o nosso povo, se transformaram em grandes comerciais. Não tiveram emoção. E Serra carrega em sua vida e na sua história momentos de enorme emoção: foi presidente da UNE, foi exilado, foi ministro, foi um político com uma enorme capacidade de realização.

Serra não era um bom produto, era na verdade um excelente candidato. Mas faltou emoção nos programas.

E emoção é fundamental na vida da gente e do país. É a linguagem forte da nossa televisão.

Eu me lembro de que um dia, na feira de Caruaru, estava com o jornalista Hélio Polito. Encontrei um caboclo vendendo redes brancas e eu precisava exatamente de uma rede branca.

Quanto é? perguntei. Ele disse o preço e eu paguei. Aí o Polito falou para o caboclo: ”Cliente bom esse aí, nem discutiu o preço…” E ele respondeu: ”Não gostei não senhor. Não teve emoção.”

 

 

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