A hiastória infantil tradicional e a TV

 

A televisão substitui a contação de histórias?

A resposta pode ser imediata:- Não. Ela pode tomar o lugar daqueles contos,mas substituir, não. Porque o meio televisivo impede a absorção de algumas idéias que só podem ser transmitidas através da palavra (falada ou escrita) e que não podem ser substituídas por imagens. Imagens representam coisas, palavras, idéias. A definição de idéia como “representação mental de uma coisa concreta ou abstrata” pode ser anulada através da pura observação de imagens (que podem gerar idéias, sem dúvida).  Para Neil Postman uma imagem fala mais que mil palavras, mas não substitui mil palavras. Mas, uma criança diante da TV vê centenas de imagens por minuto além de elaboradas criações computadorizadas sem um tempo para digerir cada imagem. Ela simplesmente absorve concrtetamente o que vê sem que seja preciso imaginar nada. A TV já entrega toda possibilidade de pensamento. A palavra não se faz necessária uma vez que as imagens veiculadas tomam o lugar principal.

Ao contar uma história, o adulto está em primeiro lugar atendendo uma demanda infantil que é a de atenção. A voz, as flexões, a mímica presente no ato do conto são elementos que levam a criança e adulto a um relacionamento que a TV não poderia oferecer. A presença do aparelho eletrônico pode favorecer o isolamento fazendo jus ao termo “babá eletrônica”. Não há um diálogo. O adulto passa a ser não necessário uma vez que a telinha fornece voz, conteúdo, animação, diversão sem a necessidade da experiência humana.

A estruturação do conto de fadas (por exemplo) mantém um padrão de personagens e de ação onde os elementos recorrentes como castelos, florestas e etc., representam segundo Bruno Bettelheim, símbolos do inconsciente que traduzem imagens inconscientes . Nos desenhos animados alguns desses elementos são apresentados, mas sem a mesma força que conteriam numa narrativa oral. Ou teriam, sim, uma força criada em um estúdio força essa determinada por um desenhista que confere a sua criação características muito particulares interferindo, ou mesmo impedindo, que a criança crie a sua própria imagem dos seres participantes das histórias.

Os desenhos animados, em sua maioria, apresentam elementos da atualidade, sem relação com uma história ou um passado mítico, muitas vezes são meros trailers de ação nos quais os mecanismos eletrônicos são a garantia de aventura muitas vezes violenta. A isso soma-se elementos completamente estranhos  frutos de uma  alucinação como seres mutantes, as vezes mistura de máquina e seres humanos. Devemos levar em conta que muitos desses comics animados são produções do mercado americano ávido por novos consumidores e que nos intervalos são vendidos produtos associados aos desenhos animados ou outras mercadorias que enchem os olhos da criança tornando essa assistência em nada mais que uma sessão de ofertas de produtos que apenas concorrem para o incentivo à prática do consumo.

Há, por estranho que possa parecer, elementos comuns a contos tradicionais infantis e desenhos animados. Violência é um deles. Porém nos contos tradicionais a estruturação e ausência de imagens fazem com que a violência seja diluída e percebida como elemento do cotidiano sem, contudo, ser para a criança uma fonte de inspiração a atos análogos. Já na TV ela é apresentada cruamente onde é possível com um tiro de revólver o rosto de um personagem ser destruído e na cena seguinte surgir inteiro como se nada tivesse acontecido. Além do fato de algumas dessas produções como as Hanna Barbera terem um cenário completamente pobre com a repetição de fundos como alguma forma de economia.

A ilustração dessas produções infantiliza as formas e as representações tornam-se de um mau gosto percebido como uma coisa engraçada. Por exemplo criações esdrúxulas como o Bob esponja passam a ser imediatamente consumidas pelo público infanto-juvenil com uma infinidade de produtos associados. Os estúdios Disney, embora cuidem mais das produções quando recriam os contos tradicionais, adotam a postura do consumo quando é possível comprar roupas, mochilas, material escolar com as imagens veiculadas pela TV. E assim é com os personagens dos comics transportados para a TV como Homem-aranha, Batman.

Os quadrinhos têm seu valor (alguns discutíveis meros representantes do poderio americano) mas em nada substituirão os contos tradicionais.

” Se as crianças adoram, deixem que assistam” é o que se pode pensar, porém não devem  nos esquecer de que há uma tendência atual à não observância da qualidade do que se mostra na mídia e não há também uma diferenciação no que a criança assiste na TV. Embora haja programações especiais para a infância, nem sempre os programas são algo de se admirar e a TV se apresenta como um enorme supermercado de imagens, coisas diversas onde todos podem ver de tudo. É o “meio que escancara tudo” para usar um termo de Neil Postman. É possível encontrar apresentadoras infantis em trajes associados à infância sem que em nada sejam apropriadas aquela faixa etária a que são destinados. Verdadeiros símbolos sexuais fazem fortuna sobre o que deveria ser mais educativo e lúdico.

Os tempos mudaram? Sim, mudaram! Mas não é preciso aviltar a infância com produções em massa para alimentar o mercado de quinquilharias de marketing alterando com isso a atenção para objetos de consumo que homogeneíza as mentalidades fazendo com que o público perceba as mesmas coisas, queiram as mesmas músicas, achem graça nas mesmas piadas, gostem do mesmo que todos gostam. O gosto duvidoso passa a ser o que então era considerado qualidade. (ver a seção sobre ilustrações neste site). Aí você chega num restaurante onde está tocando uma música altíssima de péssima qualidade (ainda que fosse de boa) onde não possibilidade de diálogo; numa TV gigante há o clip, ou o jogo de futebol; o carro parado na porta com o som competindo com o do bar. A culpa é da TV?  Não, não é, mas o modelo é o mesmo:- Diversão a qualquer custo, vários estímulos ao mesmo tempo e para todos, sem distinção. Nesse ambiente está a criança assistindo a um clip de forró (por exemplo) e no último volume. Nele, moçoilas em trajes minúsculos rebolam freneticamente com a câmera focalizando, desavergonhadamente, as partes íntimas. O mesmo clip passa na televisão em plena manhã ou tarde sem que os pais se indignem. A mesma observação vale para as cenas de violência.

Se os tempos mudaram, os contos tradicionais , não. Continuam a atrair a atenção de milhares de crianças que tem a sorte de poder ouvi-los ou lê-los. Há uma tendência do politicamente correto a banir esses contos acusados de anacrônicos, conformistas e causadores de preconceitos. Esse é um assunto que poderá ser encontrado nesse site em Infância, leitura e família.

A imagem acima estava na agenda de uma criança de 7 anos em uma escola considerada de primeira qualidade. Provavelmente quem adquiriu o material foi um dos pais, um adulto que sequer questionou a viabilidade da imagem (se é que analisou omaterial) para a faixa etária ou ainda se  é adequada a material escolar. Quem a criou, igualmente, não entendeu o que a é infância provavelmente pela ação da mídia na mentalidade dos pais. Nesse caso adultos se unem e criam uma nova infância.

 

 

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