O reconto politicamente chato

Os tres porquinhos de Lewslie Brooks - 1862-1940 em Os tres porquinhos de Lewslie Brooks - 1862-1940

The Story of the Three Little Pigs by L. Leslie Brooke (1862-1940) emhttp://www.surlalunefairytales.com/illustrations/illustrators/brooke.html

Reconto

O reconto de fadas é uma prática utilizada com a finalidade de “reformar” as histórias tradicionais transformando-as, atualizando-as dando-lhe uma roupagem moderna e politicamente correta. Nessa leva é possível encontrar argumentos sobre a submissão da mulher, o terror imposto pelas bruxas que seqüestram criancinhas e devoram carne humana, sobre os pais que abandonam filhos na floresta e todos esses acontecimentos recorrentes nesse tipo de narrativa.

Porém o que não se observa é que, nesse caso,

 “a Estória infantil revelará um pensamento do grupo social em todas as formas da atividade humana.” A leitura de estórias (como também a ida ao cinema, a participação em espetáculos esportivos , o divertimento em grupos e outras tantas atividades) permitirá que a criança viva com maior intensidade os seus impulsos e transforme em expressão simbólica o combate dos heróis contra os inimigos, a luta dos bons contra os maus. ( José Fernando Miranda).

Os contos tradicionais são modelos  de comportamentos humanos que podem, em alguns aspectos, serem considerados universais. O relacionamento em família, o abandono, o ciúme entre irmãos, a madrasta e a bruxa (que podem ser interpretados como mãe boa/mãe má inclusive) são fatores inegáveis do dia a dia observados ainda hoje e que já eram abordados há milênios até mesmo pela mitologia (mitologias).

O fascínio que tais histórias exercem sobre crianças de várias idades e de vários países e épocas provém, provavelmente, da tradição mantida pelo conservadorismo infantil. A infância, segundo Neil Postman (O desaparecimento da infância – Graphia Editora, Rio de Janeiro), é conservadora porque sua relação com o adulto é de dependência extrema até certa idade e mesmo após aquisição de autonomia essa relação permanece com certo grau de dependência e é certo também dizer que a infância tem uma grande força sobre o adulto. Muitos de nossos medos e incertezas têm suas raízes nela e na forma pela qual nos relacionamos com os adultos durante esse período.

Quando um adulto recria os contos de fadas está adulterando um passado mitológico que contém elementos universais, símbolos da cultura ocidental que norteiam nosso estar no mundo apesar de nem sempre termos contatos direto com essas formas de representação.

Sem um conhecimento teórico sobre o tema a recriação se torna um malefício. Geralmente essas novas versões acontecem dentro de escolas. Como exemplo cito um episódio ocorrido em uma escola infantil mantida por uma grande empresa e que se apregoava uma instituição de ensino de primeira linha. A professora resolveu analisar Branca de Neve e os sete anões sob o prisma do politicamente correto. Uma das questões levantadas foi a pergunta: – Branca de Neve poderia ter entrado na casa dos sete anões sem ter pedido licença? Por quê? Aí eu aponto duas questões para discussão. A primeira é que o conto não  deve ser interpretado pois a criança absorve a história sem a mínima preocupação com certo e errado. Mesmo porque oscontos são amorais.  A segunda questão é que acrescentar ou retirar elementos desses contos é adulterá-los. Entrar na casa dos anões é um elemento do conto e que se Branca pedisse licença não seria conto de fada, seria a recriação dele com elementos muito óbvios, comuns sem uma ligação com o maravilhoso, com o fantástico sobre o qual essas narrativas estão embasadas.

Branca de Neve foi também citada em revista pedagógica que coloca a história como preconceituosa por se basear numa garota branca; outras que colocam a questão ecologia em Chapeuzinho Vermelho alegando ser necessário preservar os animais da floresta e outras criações “cabíveis” nesse tipo de literatura, mas que em nada contribuem para que esse tipo de literatura tenha efeito desejado.

É possível argumentar que esses contos já foram adulterados pelos seus coletores, principalmente no séc. XVII que deram a eles a roupagem atual retirando cenas de extrema crueldade, ou de pavores por demais assutadores para o ouvido infantil. Nesse caso percebemos que essa modificação aconteceu há séculos e não alterou a estrutura básica da história. Um certo grau de “crueza “ permaneceu garantido à narrativa sua principal sustância sem preocupação com a visão atual de certo ou errado pois nesses contos não há personagens ou certo/errado. O que há são situações e representações da alma humana, aspectos do caráter humano no que diz respeito à convivência e relacionamento afetivo para resolver situações que surgem em família, ou no contato com o adulto que a criança tenta compreender e se defender da inconsistência moral deles. Aliás os contos estão recheados da incoerência de adultos que colocam a vida das crianças em risco como é o caso de Chapeuzinho Vermelho, João e Maria, Rapunzel. Isso traz um benefício aos pais (ou adultos) uma vez que, de maneira sutil, as crianças aprendem sobre os erros de adultos sem confrontar a sua autoridade.

Para os pais preocupados com uma formação moral saudável para seus filhos, Corso lembra que o principal modelo não está nas páginas: crianças aprendem por imitação e os pais devem ficar atentos com suas ações perto delas. Segundo o psicólogo, as crianças são muito mais sensíveis aos atos que aos “momentos de sermão”. “Crianças percebem as sutilezas entre o que os pais dizem e o que eles fazem. No fim, elas vão fazer aquilo que os pais fazem.A educação se dá pelas experiências concretas”, diz Corso. Cantar “Atirei o Pau no Gato”, portanto, não vai tornar seu filho uma criança cruel com os animais. Vê-la maltratar animais, sim. Camila de Lira, iG São Paulo | 12/11/2010 12:14 em http://delas.ig.com.br/filhos/e+preciso+ser+um+pai+politicamente+correto/n1237825590391.html (veja o texto na íntegra neste site)

Bruno Bettheilm critica em seu “A psicanálise dos contos de fada” a apresentação adulterada dos contos de fada alegando que “o valor do conto de fadas para a criança é destruído se alguém detalha  os significados…” e “Todos os bons contos de fada têm significados em muitos níveis; só a criança pode saber quais significados são importantes para ela no momento.”(A psicanálise dos  contos de fada Editora Paz e Terra, SãoPaulo 1980).

Alega-se sobre as cenas violentas dentro dessas narrativas. Cárcere privado, canibalismo, crueldade para com crianças

E quanto às passagens violentas dos contos de fada, como a perseguição de Branca de Neve pela Madrasta ou o Lobo Mau devorando a Vovozinha? “Para a criança muito pequena, o conto de fada é  uma maneira de pensar a vida. A criança tem um jeito hiperbólico, exagerado de pensar. Ela pensa no contraste, por isso os contos são assim. Eles estão na altura do que elas pensam, na linguagem delas”, diz Corso. “O conflito é fundamental numa boa história. As histórias de medo apenas fortalecem as crianças, as preparam para o mundo de fora e de dentro”, completa Brenman.http://delas.ig.com.br/filhos/e+preciso+ser+um+pai+politicamente+correto/n1237825590391.html

José Fernando Miranda afirma que dentro das narrativas não há seres humanos e sim representações de aspectos cruciais com que o leitor/ouvinte pode identificar-se ou ver o outro.  Cita ainda Vico que

“entendeu que as primeiras interpretações da realidade não deveriam ser buscadas nas teorias filosóficas, mas na obra dos poetas. Eles foram os primeiros a ordenarem a existência do homem e do mundo. Na relação religiosa original, o homem conhece o “eternamente imperante”. (Estória infantil em sala da de aula. Semiótica de personagens. Porto Alegre, Sulina – 1978).

Os motivos pelos quais não deve haver reconto tem embasamento em trabalhos consistentes. A preservação deles à maneira que chegou até os dias de hoje deve ser garantida para  que seus efeitos sobre as crianças sejam satisfatórios.

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