É preciso ser um pai politicamente correto?

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É preciso ser um pai politicamente correto?

Especialistas discutem até que ponto o uso de filtros “politicamente corretos” em histórias e cantigas funciona para as crianças

Camila de Lira, iG São Paulo | 12/11/2010 12:14

Com a justificativa de que a obra “Caçadas de Pedrinho”, de Monteiro Lobato, tenha passagens racistas, o Conselho Nacional de Educação (CNE) recomendou a sua exclusão da lista de livros distribuídos às escolas públicas. O parecer foi publicado no Diário Oficial no começo do mês e causou polêmica entre artistas e pedagogos. Além das discussões sobre censura, o que está mesmo no centro desta decisão do CNE é um movimento que vem acontecendo há algum tempo: a mudança das histórias e cantigas infantis para suas versões politicamente corretas.

Pais preocupados com a formação dos filhos devem se lembrar do poder do exemplo

De acordo com Mário Corso, psicólogo e autor do livro “Fadas no Divã – Psicanálise nas Histórias Infantis” (Editora Artmed), existe um limite bem estreito entre o politicamente correto benéfico e o maléfico. Ele lembra que o fato das crianças não poderem mais contar piadas racistas é algo bom. “Há uma correção na linguagem para não ofender o outro e isso não pode ser totalmente ruim. O problema é a generalização”, comenta Corso.

No caso de “Caçadas de Pedrinho”, o problema apontado pelo CNE está ligado ao momento histórico no qual o livro foi feito. Segundo o escritor e contador de histórias Ilan Brenman, os adultos precisam estar preparados para responder às questões das crianças sobre os livros que leem, inclusive sobre esta do racismo. Acima disto, para ele, as crianças não absorvem este tipo de preconceito nos livros de Lobato. “Os adultos estão transformando a literatura clássica, de alta qualidade, em algo que a criança não traduz. A criança não concorda com este pensamento, aos olhos delas a literatura é diferente do que é para os adultos”, afirma Brenman.

Para os pais preocupados com uma formação moral saudável para seus filhos, Corso lembra que o principal modelo não está nas páginas: crianças aprendem por imitação e os pais devem ficar atentos com suas ações perto delas. Segundo o psicólogo, as crianças são muito mais sensíveis aos atos que aos “momentos de sermão”. “Crianças percebem as sutilezas entre o que os pais dizem e o que eles fazem. No fim, elas vão fazer aquilo que os pais fazem.A educação se dá pelas experiências concretas”, diz Corso. Cantar “Atirei o Pau no Gato”, portanto, não vai tornar seu filho uma criança cruel com os animais. Vê-la maltratar animais, sim.

Além disto, Brenman ainda indica que os pais devem tentar se lembrar de quando eram crianças. Para ele, o grande problema é que o pensamento politicamente correto pressupõe uma criança bem comportada, bem limpa, idealizada. “Em resumo, um adulto controlado”, diz. “A criança real não é essa. Criança gosta de falar de pum e de cicatrizes no joelho”, diz Brenman. O escritor ainda acrescenta que os pais não podem passar por cima desses pensamentos da criança, pois isso cria outros tipos de conflito.

Quem tem medo da bruxa má?

Na opinião de Brenman e Corso, os contos de fada e cantigas de ninar estão longe de ser maléficos para as crianças. “Quanto mais a gente puder se expressar pela palavra, melhor. Se a gente não nomear a raiva, ela não vai desaparecer, ela vai nos consumir”, diz Brenman. Corso diz que é muito melhor que as crianças liberem suas agressividades neste mundo imaginário, pois o deixarão de fazer no mundo real. Ele explica que elas precisam entender que outras pessoas também têm sentimentos ruins, como a raiva ou a inveja, e isso pode ser visto nos vilões e monstros das histórias.

E quanto às passagens violentas dos contos de fada, como a perseguição de Branca de Neve pela Madrasta ou o Lobo Mau devorando a Vovozinha? “Para a criança muito pequena, o conto de fada é  uma maneira de pensar a vida. A criança tem um jeito hiperbólico, exagerado de pensar. Ela pensa no contraste, por isso os contos são assim. Eles estão na altura do que elas pensam, na linguagem delas”, diz Corso. “O conflito é fundamental numa boa história. As histórias de medo apenas fortalecem as crianças, as preparam para o mundo de fora e de dentro”, completa Brenman.

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