A mulher na MPB

Carmen Miranda (* Portugal 1909 + EUA 1955) em foto de 193o.

Em 1932 Carmen Miranda gravou o samba Mulato de Qualidade. De autoria de André Filho a letra do samba expressa de maneira jocosa uma situação que em época alguma seria de fazer rir. Diz  no refrão

Vivo feliz, no meu canto sossegada/Vivo feliz, no meu canto sossegada/ Tenho amô, tenho carinho, oi!/Tenho tudo e até pancada!/Tenho amô, tenho carinho, oi!/Tenho tudo e até pancada!

A interpretação de Carmen é alegre, divertida. A melodia é de boa qualidade. O que chama a atenção é o fato de que a violência seja tratada com tanta naturalidade, banaliza-se. Para a época, 1932, algum comentário politicamente correto poderia ser improvável, pelo menos nunca encontrei registros a esse respeito.

A descrição do mulato de qualidade:

Eu lá no morro só de fato, só respeito o meu mulato/ Porque ele é mesmo bamba, e é bom no samba/ Qualquer parada, ele topa com vontade/ É respeitado, quer no morro ou na cidade/ E eu gosto dele, porque é um mulato de qualidade/E eu gosto dele, porque é um mulato de qualidade

e continua

Onde o batuque tá formado, meu mulato é bem cotado/ Porque tem inteligência, muita cadência/ Com harmonia, diz um samba de verdade/ É alinhado, como os moço da cidade/ E eu gosto dele, porque é um mulato de qualidade/ E eu gosto dele, porque é um mulato de qualidade (fonte http://carmen.miranda.nom.br/gr_144.html).

Pela descrição percebe-se um malandro do morro carioca (o samba foi gravado no Rio de Janeiro).  A relação dos personagens é de amor e violência se observarmos a letra cruamente. Ele se veste bem, é alinhado, respeitado no morro e na cidade , enfim tem “qualidade” o que que lhe confere até o “direito” de espancar a companheira o que ela recebe com estranha naturalidade.

Dez anos depoisWilson Batista e Haroldo Lobo lançaram para o Carnaval de 1942 o samba Emília:

Quero uma mulher que saiba lavar e cozinhar/ Que de manhã cedo me acorde na hora de trabalhar/ Só existe uma/ E sem ela eu não vivo em paz/ Emília, Emília, Emília/ Não posso mais/ Ninguém sabe igual a ela preparar o meu café/ Não desfazendo das outras, Emília é mulher/ Papai do Céu é quem sabe a falta que ela me fez/ Emília, Emília, Emília/ Não posso mais

Mário Ramos de Oliveira, o Vassorinha (SP*1923 – SP+1942)

A letra poderia ser um anúncio de classificados a procura de uma empregada, cozinheira, secretária.  Dá a entender que ele clama pela  volta da mulher amada mas, em momento algum, há uma palvra de carinho, amor apenas a falta do café, da roupa  lavada, da culinária que para ele são perfeitas a ponto de  desprezar  outras mulheres. A esses atributos de escrava do lar ele dá o nome de MULHER .

O homem que canta sua suposta amada não consegue ver que pode existir amor entre eles e sente a falta primeiro e antes de tudo da funcionária que ela representa. Essa relação é, ao que parece, uma constante nas relações de muitos casais inclusive nos dias atuais. Era comum em muitos casamentos a mulher largar  o emprego para cuidar da casa. Hoje a situação econômica exige que ambos trabalhem. O homem deixou, então de ser o provedor do lar mas não perdeu seu lugar de status na sociedade machista ocidental. A jornada de trabalho da mulher continua sendo dentro e fora do lar. O papel de mãe criado pela cultura continua a lhe exigir grande parte do tempo e nem sempre as tarefas são divididas embora essa situação esteja tomando outros contornos.

Mas o  companheiro é ,ainda, considerado pela mulher, em muitos casos, como um ajudante para as tarefas domésticas e não como participante efetivo das questões corriqueiras do dia a dia que exigem uma cooperação maior com comprometimento e assiduidade uma vez que ambos estão a lidar com uma vida em comum.

Mais uma vez o samba é de qualidade e a gravação original e talentosa de Vassourinha. Foi cantando no Carnaval de 1942 embalando multidões que sequer, provavelmente,  prestavam atenção no que a letra realmente dizia.

Mais ou menos o que ocorre hoje com letras de duplo sentido e muitas em relação á mulher quando em bailes funk (por exemplo) a turba dança enebriada por uma avalanche de insultos  veiculados por uma melodia hipnotizante. A diferença é que a crueza das letras funk contrasta com  a estrutura mais elaborada da MPB de antes e sem o chuleiro dos dias atuais.

Mas a MPB tem elogios rasgados à mulher.  Pixinginha (Alfredo da Rocha Vianna Jr. (1897 – 1973) compos a valsa ROSA em 1917 ( a letra só foi escrita muito depois por Otávio de Souza) e gravada em 1937 por Orlando Silva.

A letra fala de uma mulher ideal, enaltecida como uma entidade intocável:

Tu és, divina e graciosa/ Estátua majestosa do amor/ Por Deus esculturada/ E formada com ardor/ Da alma da mais linda flor/ De mais ativo olor/ Que na vida é preferida pelo beija-flor/ Se Deus me fora tão clemente/ Aqui nesse ambiente de luz/ Formada numa tela deslumbrante e bela/ Teu coração junto ao meu lanceado/ Pregado e crucificado sobre a rósea cruz/ Do arfante peito seu/ Tu és a forma ideal/ Estátua magistral oh alma perenal/ Do meu primeiro amor, sublime amor/ Tu és de Deus a soberana flor/ Tu és de Deus a criação/ Que em todo coração sepultas um amor/ O riso, a fé, a dor/ Em sândalos olentes cheios de sabor/ Em vozes tão dolentes como um sonho em flor/ És láctea estrela/ És mãe da realeza/ És tudo enfim que tem de belo/ Em todo resplendor da santa natureza/ Perdão, se ouso confessar-te/ Eu hei de sempre amar-te/ Oh flor meu peito não resiste/ Oh meu Deus o quanto é triste/ A incerteza de um amor/ Que mais me faz penar em esperar/ Em conduzir-te um dia/ Ao pé do altar/ Jurar, aos pés do onipotente/ Em preces comoventes de dor/ E receber a unção da tua gratidão/ Depois de remir meus desejos/ Em nuvens de beijos/ Hei de envolver-te até meu padecer De todo fenecer

É quase uma oração na qual a mulher é concebida como um ser purissimo. Os extremos sempre oferecem problemas. Se de um lado a mulher é cantada e decantada como deusa, de outro é depreciada como empregada e outros desqualificativos ainda em voga principalmente nas letras funk onde o acinte é maior e mais acirrado.

Assis Valente (?1911 +1958)

Mulher sempre foi tema para a MPB. Assis Valente compos em 1935 o samba Boneca de Pano , gravado em 1950, no qual narra a vida de uma dançarina de cabaré:

Boneca de pano/ Gingando num cabaré/ Poderia ser boneca de louça/ Tão moça mas não é/ Poderia ser boneca de louça/ Tão moça mas não é/ Um dia alguém a chamou de boneca/ E ela sendo mulher, acreditou/ O tempo foi passando/ E ela se desmanchando/ E hoje quem olha pra ela não diz quem é/ Em vez de boneca de louça/ Hoje é boneca de pano/ De um sombrio cabaré.

A referência a boneca de pano é clara no sentido de que trata-se de mulher pobre. Lembra retalhos, restos. O que chama atenção é o verso”um dia alguém a chamou de boneca, e ela sendo mulher, acreditou”. A alusão ao poder da palavra sobre  o sexo feminino é bastante objetiva e conclusiva – como se bastasse palavras bonitas para convencer a mulher, conseguir dela comportamentos como se tratasse de alguém com pouco ou nenhum dominio sobre si. Faz lembrar o maníaco do parque que respondeu a pergunta sobre como ele  conseguia convencer garotas a segui-lo “falo o que elas querem ouvir”.

Mas o samba é quase um lamento pela situação da boneca que perdeu seus encantos e agora vive num sombrio cabaré. Há um respeito contido na letra sobre o que essa pessoa perdeu na vida, como ficou relegada por não ter mais os atrativos para a profissão. A mulher objeto é aqui levada em consideração como alguém que tem desejo, vaidade e história. A própria melodia é um tanto merencória.

Em outra composição Assis, cronista da cidade, aponta para o preconceito em relação à mulher (e à situação social). É o samba Recenseamento gravado por Carmen Miranda em 1940.

Em 1940 lá no morro começaram o recenseamento/ E o agente recenseador esmiuçou a minha vida que foi um horror/ E quando viu a minha mão sem aliança encarou para a criança que no chão dormia/ E perguntou se meu moreno era decente se era do batente ou se era da folia

O recesenceador reparou na mão sem aliança numa clara alusão ao preconceito em relação ao concunbinato. A convenção social fala mais alto ao agente do governo quando sugere que o marido da entrevistada poderia ser um malandro. Curioso é que sua atitude remete a um autoritarismo gritante uma vez que não faz parte do censo saber se alguém é do batente ou da folia. Se ela ostentasse uma aliança talvez esse fato passasse desapercebido. No entanto o autor do samba, um negro, orfão e de origem incerta (foi raptado por uma família no interior da Bahia) cita o fato talvez para confirmar ou denunciar a situação   da população dos morros cariocas em contraste com a elite do asfalto.

Atualidades.

Escancarado mesmo é o FUNK DO CHTAUBA que dispensa comentários:

Chatuba de Mesquita

Furacão 2000

Atenção chegô chatuba, hein/ Atenção chegô chatuba, hein/ Vâmo esculachá, hein/ Máquina de sexo/ Eu transo igual a um animal

A chatuba de Mesquita/ Do bonde sexo anal/ Muleke playboy/ Funkero sexo anal/ A chatuba de Mesquita/ Come as mina de geral/ Andamos de redlei/ Viemos pegá mulhé/ A chatuba de Mesquita/ Do bonde do nike ér/ Chatuba come cu/ E depois come xereca/ Ranca cabaço/ É o bonde dos careca/ Máquina de sexo

Eu transo igual a um animal/ A chatuba de Mesquita/ Do bonde sexo anal/ Muleke playboy/ Funkero sexo anal !!!/ A chatuba de Mesquita/ Come as mina de geral

 A letra dispensa comentários mas cabem análises. As perguntas cabíveis são a quem se destina essa letra; quem canta; quem dança ao seu som? Não só a mulher sai ultrajada mas também o homem que só quer “comer, rancar... Esse é mais um funk ultrajante que serve aos moralistas de plantão para cercear a liberdade de expressão que deve ser mantida e respeitada. Nesse discurso moralista a família surge como apanágio de pureza, enclave da religião e da virtude.O que não se comenta é que dentro dela estão os consumidores desse produto grosseiro. Que tipo de adulto concorda em conviver com a violência contra  a mulher dentro de casa (afinal uma lei especial teve de ser criada -Maria da Penha- a fim de coibir os atos machistas violentos dentro do espaço doméstico principalmente), nas músicas e em tantos outros momentos.O que não deve acontecer é o abuso a que se dá o nome de liberdade!

Mas há uma multidão que “curte” esse tipo de expressão popular. Se essa multidão existe é porque letras desse calão são aceitas por uma juventude que provavelmente tem pouco contato com uma produção de qualidade. Podemos imaginar as tchutchucas, cachorras, saradas rebolando ao som de frases como “Funkero sexo anal/ A chatuba de Mesquita/ Come as mina de geral” muitas delas menores expostas à fúria do prazer a qualquer custo. Prazer sem reflexão que garante a existência de estatutos do idoso, da infância e cria leis como a Maria da Penha  necessária numa sociedade que não respeita mulheres mas que também não respeita idosos,  crianças, homossexuais, índios, negros. Essa situaçãoo promove as cruzadas pela família como se dentro dela estivesse a garantia de uma sociedade saudável. Curioso pensar que essas marchas pela moralidade começam acusando os guetos de minorias como homossexuais, protitutas e outros marginalizados esquecendo-se que a existências dessas condições marginais estão associadas à sociedade e que ela mesma cria o que chamam de monstros e tratam de combatê-los.

O melhor exemplo dessa incoerência está nos pitiboys que matam, espancam negros, homossexuais, nordestinos, mulheres mas que são defensores de uma suposta moralidade dentro da qual não estão a não violência, tolerância e reflexão. Eles talvez sejam o mais fiel retrato de uma sociedade doente moldada durante séculos pelo direito, pela religião e muitas vezes com o aval da ciência.

Fato preocupante são as falas de congressistas que apoiam e fomentam esse ódio mas que, em todo caso, estão lá onde estão para representar e defender o “direito” de seus pares que o elegeram em nome de uma pouco confiável maioria moral.

Para mais informações, um site interessante sobre MPB

http://cifrantiga3.blogspot.com/

 

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

(Spamcheck Enabled)