Me chamam lobo mal, eu sou o tal! O mal nos contos de fada- cantigas de ninar

A tarefa central do romance de hoje é a indagação sobre o homem, o que equivale a dizer que é a interrogação sobre o Mal. O homem real não existe sem o demônio: Deus não basta. (Ernesto Sabato)

  Adultos perpetram o mal nos contos de fada e na vida real

Barbazul de Gustav Doré

O mal é sedutor. Essa afirmação é de Stephen King e contém uma verdade. Nossa civilização se processou através do mal. Adão e Eva se deram mal, Caim e Abel, Sodoma e Gomorra, o dilúvio, a queda do paraíso, perseguições e guerras para citar alguns dos primeiros momentos de nossa história bíblica. No livro sagrado exemplos de bondade existem, mas, em nada contribuíram para modificar a face da terra ou acrescentar ao homem uma mudança de seu estar no mundo. Pelo contrário, a figura de Jesus harmonioso, bondoso e conciliador se transformou no baluarte de fanatismo em séculos de história e história mal contada. Contar a história do mundo poderia ser contar a história da maldade. Os progressos científicos andaram sempre atrelados ao das armas, das guerras. Grandes ídolos, grandes mitos tem suas sagas ligadas de alguma maneira ao mal.

Monumentos grandiosos como as pirâmides do Egito, são exemplos de quanta energia se gasta, quanto trabalho escravo (ou não) para edificar obras particulares dedicada a uma entidade ou a um rei. A civilização pré-colombiana competia em maldade com a dos espanhóis colonizadores que se impuseram pelo conhecimento técnico aliado a astúcia. Portugueses donos dos oceanos durante anos e do maior império ultramarinho de todos os tempos demonstraram uma capacidade para o mal que marcou para sempre a história da África e do Brasil com o comércio macabro de pessoas além de, junto com praticamente toda a Europa, terem por séculos torturado, matado hereges através da inquisição. Há relatos de crianças terem sido torturadas em “nome de deus”.

O mal é realmente sedutor. Ele impõe status. Nas escolas os meninos ou meninas, bonzinhos (as) não são os admirados definitivamente. A prática do bullyng não é uma novidade e os valentões garantem seu lugar ao sol e muitas vezes, admirado e idolatrado sendo tomado como exemplo de comportamento. “O mundo é dos espertos” é uma frase repetida a exaustão e reflete uma realidade insana. Os espertos estão no poder, nas salas de aula, nos tribunais, nos campos de futebol, enfim em todos os lugares (até nas igrejas) eles costumam ser o mal personalizado.

Se o mal seduz, repeti-lo faz sucesso. Basta uma olhada na produção de Hollywood para perceber o tipo de filme que mais agrada a um público ávido de emoção. Os de ação são os que rendem mais lucro. Neles o mal é apresentado muitas vezes como violência gratuita e com uma dosagem de glamour garantindo diversão mórbida.

A tecnologia mostra a violência crua. É difícil assistir a filmes dos quais não constem explosões, corpos atravessando janelas, assassinatos e tudo apresentado de forma às vezes muito gratuita. Mas tudo isso porque o mal existe e não é muito possível dissimulá-lo. Crianças expostas a situação de risco tendem a ter sua personalidade marcadas para sempre não só com a violência das ruas mas com a doméstica essa que está bem próxima e se revela em abusos sexuais, violência física e psicológica.

O espaço doméstico é o pano de fundo para muitos dos contos de fada tradicionais no qual se desenrolam os acontecimentos que colocam o protagonista, geralmente jovem ou criança, em situações muitas vezes violentas, perigosas e que exigem persistência, coragem e astúcia de quem os sofre.

Para Marie Louize Von Franz, a sombra nos contos de fada é personificação de certos aspectos inconscientes da personalidade. A sombra é a parte obscura do EU, é o que me diz respeito, mas não conheço conscientemente.

Nos contos tradicionais o mal é personificado pelo adulto que se apresenta sob a imagem de uma bruxa, uma rainha má ou pais desnaturados, além de outras personagens recorrentes. Esses adultos são o principal empecilho ao crescimento do protagonista embora ao mesmo tempo o impulsionem, com sua maldade, para o mundo, para a vida e sem o saber, levam-no à maturidade. Agem como o verdadeiro perigo em suas vidas repetindo um fato histórico ainda hoje observável como é o da violência doméstica por exemplo.

RAPUNZEL. A história de Rapunzel tem início com o desejo de uma grávida que para saciá-lo exige do marido a transgressão de pular o muro da bruxa para roubar frutos (raponzos). Se de um lado a mulher é caprichosa, de outro o marido demonstra fraqueza a não se impor pela razão. O mito de Eva se repete.

Rapunzel de Isobel Lillian Gloag

A continuação se dá com a promessa, irresponsável, dos pais de entregarem à bruxa a criança ao nascer como pagamento pelo furto que foi descoberto. No dia do batizado a bruxa aparece e leva a criança para a torre onde vive em cárcere privado, até o início da adolescência. É bem claro que o ato dos pais colocou em risco a vida de uma criança que traduzido em dias atuais, seria ocaso da intervenção de um juizado ou da observação do conselho tutelar. O mal nessa história está localizado no casal de pais que não demonstravam maturidade bastante para lidar com a infância.  O mal e representado pela mentira e pelo descaso pela propriedade alheia, pelo roubo. Podemos entender esse descuido do marido como a origem de um grande mal que repercuitu na vida de uma jovem por muitos anos. “Pequenos descuidos podem produzir grandes males”.  (Benjamin Franklin)

JOÃO E MARIA. Em João e Maria a história se repete. Os pais em algumas versões abandonam as crianças na floresta por não terem o que oferecer para alimentação. Em outras uma madrasta má exige do marido que abandone os frutos do primeiro casamento por pura maldade. Nesta versão a atitude do pai é de cumplicidade com um ato criminoso que no código penal é denominado de abandono de incapaz.  Abandono de incapaz é posto no código penal brasileiro no capítulo da periclitação da vida e da saúde, no art.133 Abandonar pessoa que está sob seu cuidado, guarda, vigilância ou autoridade, e, por qualquer motivo, incapaz de defender-se dos riscos resultantes do abandono.

Ilustração de John Batten

O que o direito ordenou em sua letra é fato que tem ocupado a sociedade há séculos. A infância quando da criação desses contos, não era percebida como hoje. Socialmente ela não existia até o século XVII.  Se é preciso uma lei para ordenar tal situação, é porque a situação existe e é preciso evitá-la. É preciso proteger a infância de um mal concreto. Nas duas versões os pais são a fonte do mal da dupla de crianças que abandonadas na floresta encontram outra adulta má, a bruxa que os seduz para uma casa de delícias que se torna um cárcere privado. O mal surge nessa história envolvida em questões controversas. No caso da pobreza extrema como argumento para o abandono, o casal é vítima de uma situação bastante plausível que explica, mas não justifica sua atitude.  A pobreza  é também o mal, uma forma de violência social e a fome sua conseqüência perversa. Nesses casos adultos e crianças são vítimas.

Hansel and Gretel by Wunsch

RUMPEL-STILTIS-KIN. “Era uma vez, em certo reino, um pobre moleiro que tinha uma filha muito bela. Ela era também extremamente hábil e inteligente, e o moleiro era tão convencido e orgulhoso dela que um dia disse ao rei da terra que sua filha podia fiar ouro de palha. Ora, este rei era ávido por dinheiro e, ao ouvir a jactância do moleiro, sua avareza ficou excitada e ele ordenou que a moça fosse trazida à sua presença. Ele a levou então a um quarto onde havia uma grande quantidade de palha, entregou-lhe uma roca e disse, “Tudo isto deve ser fiado em ouro até a manhã, se dás valor à vida.” De nada valeu a pobre donzela declarar que não poderia fazer tal coisa; o quarto foi trancado e ela ficou só”.

Rumpel-stiltis-skin de Walter Crane

Rumpel-stiltis-skin tem seu inicio com os aspectos psicológicos do pai:- vaidoso, orgulhoso sendo incapaz de ver na filha uma pessoa que por mais bela, é uma pessoa comum. Ao orgulho e vaidade soma-se o fato de que o moleiro possui uma atitude irresponsável apregoando qualidades que a filha não tem. Dentro das escolas tal fato se repete. Pais chamados a reuniões sobre o desempenho escolar dos filhos tendem a transferir o problema para professores, escola, método, ou más companhias dando a entender que o filho não possui problemas nem cognitivos nem disciplinares. É comum pais supervalorizarem as qualidades dos filhos ou de enxergá-las onde não existem e muitas vezes de não conseguirem ver defeitos que são evidentes para os outros. Nessa história essa atitude terminou em quase tragédia. O pai coloca a filha numa situação de risco com ameaça de integridade à vida. A mentira deixa pai e filha em situação delicada quando o rei exige que as qualidades apregoadas sejam concretizadas.

Curioso observar a ausência da mãe que sequer é citada. A relação familiar se dá entre pai e filha. O pai exalta a beleza física e a inteligência da filha. Em momento algum há referências a relação incestuosa, porém o orgulho paterno e a ausência de um terceiro elemento (a mãe) deixam claro que o conto exibe um tipo de relação hermética

Mais uma vez adultos são incapazes de produzir uma situação tranqüila para a segurança dos filhos. Tanto o rei quanto o pai são personagens que trazem alguma forma de transtorno. O rei por demonstrar cobiça sem se importar com a situação constrangedora que impõe a jovem, o pai por não se inibir em ser faroleiro.  A saída para a jovem veio do mundo fantástico fora da realidade que não oferecia ambiente propicio a uma tranqüilidade. Um anão – Rumpel-stiltis-skin- surge e realiza as tarefas impossíveis para a jovem sob a falsa promessa de entregar o primeiro filho assim que nascesse. É apenas outra mentira, o filho jamais seria entregue. Como se nota o papel dos adultos nesses contos muitas vezes é o de dificultar a vida de crianças e jovens demonstrando que é possível erros naqueles que deveriam ser seus guardiães garantindo segurança e afeto.

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