Funk em debate

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Funk em debate

Um tapinha não dói (tréplica)

por Luciano Trigo – publicado em 01/09/2002

As meninas que estão latindo e levando tapas não estão exercendo liberdade alguma. Quando escrevi o artigo “Um tapinha não dói” já esperava despertar algumas reações indignadas e ser chamado de retrogrado. A primeira surpresa foi ver minha caixa de correio eletrônico abarrotada de mensagens elogiosas e descobrir que o texto começou a circular pela internet, por iniciativa dos leitores, incluindo adolescentes.

Nem tudo está perdido, pensei, quando veio a segunda surpresa: a reação indignada não de um “Tigrão” ou de um membro da comunidade funk, mas de uma mulher, e ainda por cima professora.

Já que o debate cresceu – até por força do noticiário dos últimos dias, dando conta de estupros e outras barbaridades supostamente cometidas nos bailes funk –, julgo conveniente fazer algum comentário sobre o artigo “Tapa de pelica”, que em alguns momentos se dirige diretamente a mim (“Logo o senhor!” e coisas do gênero, como se a autora me conhecesse).

A professora Angela Carneiro gasta os dois primeiros parágrafos para defender algumas premissas falsas. Por exemplo, a de que a dança só serve para expressar “um desejo horizontal”. Não, professora, a dança é uma arte que expressa muitas outras coisas, e nem sempre a vontade de ir para a cama. Ou de que é somente a libido que move o mundo. Não, professora, o motor da história não é só a libido (para Marx, por exemplo, era a luta de classes). Ou a de que é uma “idéia enferrujada” considerar obsceno seja o que for. Não, professora, a obscenidade existe, e quando ela envolve meninas de 14 anos alguma coisa vai mal.

É certo que cada época teve o seu tapinha, mas também é certo que cada época teve os seus limites – eles são fundamentais, ao contrário do que Angela parece preconizar.

A articulista, em seguida, destila um ódio e uma revolta espantosos só porque escrevi “moça de família” em meu artigo, expressão que, ao que parece, é hoje politicamente incorreta. Estranho o estado a que chegamos: a professora não se incomoda vendo uma adolescentes latir ao ser chamada de cachorra, mas se escandaliza com a expressão “moça de família”, como se fosse uma ofensa ou xingamento. Lamento informar à professora que existem, sim, moças de família, da mesma forma que existem “tchutchucas” e “cachorras”. Vou além: as que são sabem que são, e as que não são sabem que não são. E isso não é preconceito.

Aliás, ao me acusar de “preconceito hipócrita sobre a diferença entre a liberdade sexual do homem e da mulher”, a professora mais uma vez se equivoca. A liberdade sexual é uma conquista de ambos os sexos, que deve ser exercida com consciência e responsabilidade, e não é isso o que se vê, nem o que se ouve (quem já escutou a letra da “Máquina do sexo”, de um certo “Bonde do Careca”, sabe disso). As meninas que estão latindo e levando tapas na cara não estão exercendo liberdade alguma, estão apenas sendo tratadas como lixo e aderindo à submissão e à inferioridade que suas mães e avós levaram décadas para superar. Estão abrindo mão de sua dignidade como seres humanos e se deixando reduzir a uma bunda e um par de peitos, muitas vezes siliconados.

Sobre a forma “genial” com que Nelson Rodrigues abordou o tema do “tapinha”, a professora deve estar se referindo a uma entrevista em que perguntaram ao dramaturgo se toda mulher gostava de apanhar, e ele respondeu: “Não, só as normais. As neuróticas reclamam.” É um direito da professora concordar com isso, mas eu discordo. Acho, na melhor das hipóteses, engraçado, exótico, folclórico, se for levado na brincadeira. Levada a sério, a declaração de Nelson Rodrigues é muito triste, e não tem nada de genial. A não ser, talvez, para masoquistas.

Do meio para o fim, o artigo de Angela Carneiro perde força, como se ela própria percebesse que estava defendendo o lado errado. Passa então a criticar o “caráter da sociedade”, que exalta as popozudas e as transforma em celebridades instantâneas. Ora, é outra forma de dizer o que eu disse: que vivemos num império do efêmero, em que as aparências valem mais que o caráter etc.

Já em suas referências à qualidade musical do funk, a professora revela, ela sim, uma série de preconceitos. A música do Peninha gravada por Caetano é belíssima, bem como “Amor I love you” (e não “Baby I love you”), de Marisa Monte.

Diante de tantos equívocos cometidos por uma professora, fica mais fácil entender por que chegamos a esse ponto. O que será de nossas crianças nas salas de aula?

A resposta já começa a aparecer. Um tal funkeiro mirim chamado Jonathan, de apenas 7 anos, já quer “pegar um filé com popozão”.

Vou concluir citando o e-mail que recebi de um leitor. “Depois a gente não entende o motivo do aumento dos índices de violência contra a mulher e por que ela é tão desrespeitada na sociedade. Será que não é óbvio?” Você, mulher, que está lendo isso, levante-se e lute. Não seja uma cachorra!

Um “tapinha” dói, sim. Exija respeito antes que nós, homens, acreditemos que é isso mesmo que vocês querem. E lembrem-se sempre da cada vez mais pertinente frase de Oscar Wilde: “Todo crime é vulgar, como toda vulgaridade é criminosa.”

Luciano Trigo é jornalista. * Artigo publicado no jornal O Globo, em 14 de março de 2001.

 

 

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