Um tapinha não dói?

Um tapinha não dói

por Luciano Trigo
Cheguei a uma conclusão neste carnaval: sou mesmo um homem do século passado. Depois de ouvir pela milésima vez refrões como “Um tapinha não dói”, “Vou te jogar na cama e te dar muita pressão” e “Entra e sai, na porta da frente e na porta de trás”, acompanhados de coreografias para á de sugestivas, a sensação que tenho é de que chegamos ao limite da baixaria. Simplesmente, não temos mais para onde ir.
Sei que o fenômeno do funk é interessante do ponto de vista antropológico e sociológico, que ele reflete um entrelaçamento positivo entre o morro e o asfalto, uma diluição promissora das fronteiras entre as classes sociais, etc. Mas gostaria que alguém intelectualmente “preparado” me dissesse o que passa pela cabeça de uma adolescente de família, que rebola e responde “Au, au!” quando ouve o refrão “Cachorra!”

A     virada do milênio jogou muita coisa na lata do lixo da História, e acho que neste processo foi junto a nossa capacidade de indignação.
Tiveram o mesmo destino, para o bem ou para o mal, diversas conquistas das feministas, que depois de lutarem durante décadas contra a opressão do
macho, devem estar vendo, consternadas, suas filhas embarcarem no bonde do Tigrão. É intrigante, aliás, a inexistência absoluta de reação, por parte
das mulheres pensantes do país ao processo em curso de vulgarização radical da imagem feminina, que já ultrapassou todos os limites da imaginação.

Mas o mais intrigante mesmo é a questão moral, ou melhor, a ausênciade moral como questão. Não se trata mais de uma inversão de valores,mas da eliminação total de qualquer valor relacionado à conduta sexual: todo comportamento é legitimado, e o que no passado era motivo de escândalo hoje pode ser assimilado, maquiado e até incentivado pela mídia, em horário nobre.
Um exemplo desse fenômeno é o novo status de uma variação da profissão mais antiga do mundo: a garota de programa. Hoje, a julgar pela mídia, esta é uma atividade natural, que não contraria as normas da vida em sociedade nem estigmatiza quem a pratica. Sem alicerces morais, sem noção de certo e errado e com exemplos como este, o que impedirá uma menina bonita de usar seu corpo para ascender socialmente, num mundo que a estimula permanentemente a se transformar num bem de consumo para que ela própria possa consumir outros bens? Ou, para não irmos tão longe, o que a convencerá de que o sexo deve ser vinculado ao amor, e não transformado num instrumento de exploração mútua, num mundo regido pelas aparências e pelo dinheiro, onde um carro importado vale mais que a honestidade e o caráter?

Não se trata de defender uma sociedades repressiva, mas o fato é que essa total ausência de freios explica a proliferação de orgulhosas “cachorras” e “preparadas” em todas as frestas do tecido social. É claro que elas sempre existiram, mas antes pelo menos havia um pudor em relação às aparências que as confinava simbolicamente a uma margem, a uma periferia simbólica da vida cotidiana. Numa palavra: havia vergonha.

Este pudor e esta vergonha desapareceram, e hoje a cidade mais parece um faroeste, e sua vida noturna o cenário de uma caça desesperada ao razer e à grana. E isto durante o ano inteiro: o Carnaval só torna mais evidente essa dinâmica. Um tapinha pode não doer, mas o que ele representa é doloroso, pelo menos para alguém do século passado. ”

Atenção maior devem ter aqueles que andam por aí repetindo o refrãozinho “Só um tapinha nao dói” achando que é só mais uma musiquinha besta e inocente.
Lembro a quem possa estar esquecendo que os adultos ainda são responsáveis pela educação das crianças…
A Bandeirantes já vai lançar um programa semanal com duas horas de duração dedicado ao funk. Isso, claro, até o “Tigrão”, a mente por trás do “movimento”, ser domesticado, o que, em termos mercadológicos, significa botar um terninho e gravar uma babinha pra novela das oito da Globo. O “Tigrão”, aliás, deu uma elucidativa entrevista pra revista VIP de março. Eu digo elucidativa, pois ele dissipa a névoa de ignorância (por parte do público) que encobria alguns aspectos do movimento”. Vejamos: em determinado trecho da entrevista, “Tigrão” diz: – “…As pessoas gostam desse erotismo. Mas, se você analisar, as
letras nem são tão pesadas. Elas têm duplo sentido, até porque o público infantil ouve funk”.
Muitas coisas interessantes nessas sentenças! Então vamos analisar por partes:
-“…se você analisar, as letras nem são tão pesadas”. Eu analisei e ele está certo. Quem, em sa consciência, poderia achar pesada a letra do funk Máquina de Sexo”, que diz: “Máquina de sexo, eu transo igual a um animal/ A Chatuba de Mesquita do bonde do sexo anal/ Chatuba come cú e depois come xereca/ Ranca cabaço, é o bonde dos careca”?

Note-se a leveza de termos como “sexo anal”, “cú”, “xereca” (!)
e “cabaço”. “Elas têm duplo sentido…”. Procurei demais e não achei o duplo sentido no funk “Barraco III”:
“Me chama de cachorra, que eu faço au-au/ Me chama de gatinha, que eu faço miau/ Goza na cara, goza na boca/goza onde quiser”. Ah, agora entendi! “Goza na cara” é porque o cara ficava tirando sarro da menina pelas costas. Aí ela diz “Goza na cara!”. Que coisa…

– “…até porque o público infantil ouve funk”.
Eis uma verdade no discurso do Tigrão. A preocupação do “Tigrão”
se justifica. Foi pensando nas crianças que o garoto Jonathan, de 7 anos
(ele mal tem coordenação motora para reproduzir a coreografia) foi
incentivado a gravar o funk “Jonathan II”, de edificante letra:

“De segunda a sexta, esporro na escola/ Sábado e domingo, eu solto pipa e jogo bola/ Mas eu já estou crescendo com muita emoção/ E eu já vou pegar um filé com popozão”.

7 anos!!! 7 anos!!! Pô, foi mal… A culpa é minha, gente grande, feia e besta, que não entendo. Então, vamos lá, repetir o discurso de dez em cada dez apresentadores de programas femininos e de auditório: todo mundo junto, um, dois, três e já: – “A malícia está na cabeça do adulto, a criança só quer se divertir. Onde já se viu, se preocupar com uma coisa dessas. Das crianças que passam fome na rua ninguém fala nada…”. (Aplausos entusiasmados e urros de apoio, por parte do auditório).
É bom que se diga que as crianças que passam fome nas ruas são um sério problema social, cuja resolução deve ser uma das prioridades máximas de qualquer governo (detalhe sem importância: os funks da moda não passam nem perto dessa questão. Mas, beleza, vamos lá…). Só que é um outro problema.
Ao invés disso, vamos dar risada e incentivar o moleque de 7 anos (7 anos!!!) a “pegar um filé com popozão”. Afinal, nunca é cedo demais pra mostrar pro papai que se é um garanhão, que não deixa passar nenhuma cachorra. Isso é que é uma infância saudável! E pensar que eu perdi tanto tempo assistindo Bambalalão”, “Sítio do Pica-Pau Amarelo” e ouvindo aqueles~discos da “Turma do Balão Mágico”. Ao invés disso podia estar por aí, transando umas cachorras… Enquanto a gente dá risada, a molecada vai crescendo com a certeza de que mulher não passa de uma bunda e um par de peitos siliconados, que gosta de ser chamada de cachorra e que acha que só um tapinha nao dói. Se “só um
tapinha não dói”, o primeiro deveria ser dado no popozão dos tigrinhos e cachorrinhas que curtem essas coisas.
Depois a gente não entende o motivo do aumento dos índices de violência contra a mulher e porque ela é tão desrespeitada na sociedade. Será que não é óbvio?
Você, cadela…quero dizer, mulher que está lendo isso, levante-se e lute! Não seja uma cachorra! Um tapinha dói, sim! Exija respeito antes que nós, homens, acreditemos que é isso mesmo que vocês querem. Deponham as Xuxas, Carlas Perez, Feiticeiras, Tiazinhas, Enfermeiras, Internéticas, Vampiras, Fernandas Abreu e Vanessinhas Pikachu de seus reinados de miséria intelectual!
Conto com vocês!!! E lembrem-se sempre da, cada vez mais pertinente, frase de Oscar Wilde:

“Todo crime é vulgar, assim como toda vulgaridade é criminosa”

Obs: Logo que recebi este texto pela internet,comecei a divulgação dele para todas as pessoas que eu considero capazes de separar uma opinião radical de uma moral. Eventualmente, ouviremos estas músicas tocar nos bares que gostamos, e nem por isso, vamos sair fazendo discursos inflamados, correndo o risco de sermos chamados de falsos moralistas, mas vamos sim, após ouvirmos essas músicas, fazer uma reflexão e mostrarmos nossa repúdia, não passando para nossa juventude a idéia de que os garotos são ” tigrão” e as garotas são” vitaminadas cachorras popozudas”. Pessoalmente acredito na música como maior meio de propagação de idéias. Basta nós, seguirmos as que acharmos conveniente,e, se a questão é pegar a fêmea, acredito muito mais na eficácia de autores como Zeca Pagodinho e Martinho da Vila, que sem abrir mão de seu jeito malandro e despojado, tem a sensibilidade de chamar as mulheres de “minha rainha”,”deusa”,”neguinha”, sem parecerem vulgar. E aínda outros, mais bregas como Wando e Reginaldo Rossi que, independente de gostar de suas músicas, deve -se dar o devido reconhecimento à maneira sutil de referir-se a uma mulher como “coração” ou ”mon amour”.

Luciano Trigo é escritor, jornalista, tradutor e editor de livros. E pai da Valentina. Autor de “O viajante imóvel”, sobre Machado de Assis, “Engenho e memória”, sobre José Lins do Rego, e meia dúzia de outros livros, entre eles infantis. Foi editor dos suplementos “Idéias”, no Jornal do Brasil, e “Prosa & Verso”, no Globo, e colaborador de diversos jornais. Editou também as revistas “Leia Livros” e “Poesia Sempre”. Foi editor da Nova Fronteira e da Odisséia Editorial.

 

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