Contos de fadas ensinam as crianças a lidar com seus medos

 

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The History of Jack the Giant-Killer by H. J. Ford

Reportagem

Contos de fadas ensinam as crianças a lidar com seus medos

Por Patrícia Mariuzzo
10/10/2007

“Boi, boi, boi, boi da cara preta, pega esta criança que tem medo de careta”. O universo das crianças é povoado de monstros. Em músicas, filmes, literatura infantil, os monstros são acionados das mais diversas maneiras. Eles não suscitam apenas medo, pânico, mas também paixão, fascínio. Isso acontece porque o boi, a bruxa, o lobo mau, o ogro, o gigante, todos eles são essenciais no desenvolvimento psíquico da criança. A infância é a época em que as fantasias precisam ser nutridas, é a época de em que há necessidade de inventar para enfrentar a realidade e disso vai depender boa parte da nossa personalidade futura. Os monstros são uma representação simbólica que a criança utiliza para lidar com a realidade e, assim como os outros personagens dos contos de fadas e fábulas com os quais a criança entra em contato na infância, eles são parte do imaginário, dão movimento, luz e som aos sonhos para, no fim, expulsar o medo do escuro.

As histórias são um pontapé inicial para uma vida mental saudável. Segundo o psicólogo austríaco Bruno Bettelheim (1903-1990) em A psicanálise dos contos de fadas, a verdade na vida de uma criança é diferente da noção de verdade do adulto. Os contos de fada não tentam descrever o mundo externo e a realidade. Uma criança sadia nunca acredita que esses contos descrevam o mundo realisticamente. Oferecer à criança pensamento racional para que ela organize seus sentimentos e compreenda o mundo só vai confundi-la e limitá-la. “A verdade dos contos de fada é a verdade da nossa imaginação”, diz ele em seu livro.

Carolina Caldas tem nove anos. Ao escrever um texto sobre monstros ela diz o seguinte: “Existem dois tipos de monstro: o da imaginação e o da realidade. Para mim o monstro da realidade é o mais medonho… porque ele é de verdade! As vezes é porque a pessoa é muito brava, feia ou chata. Por isso eu costumo considerá-la um monstro!” O pensamento infantil é naturalmente exagerado, nele tudo ganha proporções dramáticas. Nos contos de fadas, as crianças encontram semelhanças no modo de ver o mundo. Assim, elas depositam nos monstros seus medos advindos da consciência de que os adultos são seres separados delas, que nem sempre estão por perto e, o que é mais assustador, são vulneráveis. Para a psicóloga Adriana Mangabeira, do Colégio Equipe, da cidade de São Paulo, o jogo é, por excelência, a melhor situação para lidarem com isso. “Suponho que, para aceitarem o jogo, precisam discriminar o real do faz-de-conta, ou seja, embora sintam medo, sabem que no jogo é como se aquilo estivesse acontecendo. Na brincadeira, podem contrapor, ao medo e à excitação, a certeza de que estão seguros pelo amparo do adulto que as acompanha. Identificando-se com o monstro, são fortes. Fugindo dele e conseguindo se safar, dominam sua figura e seu medo dela. Em geral, repetem exaustivamente o contato com os enredos e as brincadeiras, obtendo cada vez maior controle da situação”, explica.

Ausência e separação

Medo e excitação, realidade e fantasia se revezam nos jogos usados para entender o real. E, tanto no mundo real quanto no conto de fadas, é fundamental a presença do adulto, isto é, do pai, da mãe ou do educador. O grande potencial do conto de fadas é sua capacidade de falar, metaforicamente, sobre a estrutura familiar e sobre conflitos psíquicos naturais do ser humano, como o medo da morte ou o medo da separação. Segundo Celso Gutfreind, psiquiatra da Universidade Luterana do Brasil (Ulbra) psiquicamente o monstro é aquilo que desconhecemos, nos desagrada ou que não entendemos. “O medo do pai, a falta da mãe são coisas muito ameaçadoras para a criança”, explica. “O monstro é uma possibilidade de representar esses sentimentos. O contato com estas histórias permite às crianças falar sobre o assunto e elaborar os conflitos. É um pretexto para o diálogo”, acrescenta. Segundo Mangabeira, após a leitura de histórias do saci, curupira, mula-sem-cabeça, lobisomem etc. num grupo de trabalho do Colégio Equipe, as crianças ficaram mais à vontade para expressar seus sentimentos. “Elas se mostraram aliviadas por saber que os outros sentiam os mesmos medos que elas”, conta.

A relação da criança com seus pais e educadores é de amor e ódio. Esse ódio é natural, mas, culturalmente, não pode ser expresso. Em entrevista para a revista Época , os psicanalistas Diana e Mário Corso, autores do livro Fadas no divã , explicam que no pensamento infantil tem incesto, execuções sumárias e massacre de todos aqueles que se interpuserem entre a criança e seus desejos. “Os contos de fadas administram essa pequena loja de horrores da mesma forma que as crianças: neles tudo pode ser aludido, sem que nada tenha que ser explicitado”, disseram. O monstro do conto de fadas oferece uma possibilidade de representar esses afetos. Assim, por meio da bruxa, é possível dar sentido para o ódio sentido pela mãe, a vontade de morder, comum em toda criança, pode ser amenizada pela figura do lobo mau, com uma boca enorme, que devora a vovozinha.

O primeiro grande desafio da criança é criar vínculos com duas figuras principais: o pai e a mãe. Para ela se desenvolver bem, esse encontro com seus cuidadores tem que ser satisfatório, caso contrário podem ocorrer problemas psicológicos e físicos. O psiquiatra Celso Gutfreind participou de uma pesquisa em abrigos franceses para crianças separadas dos pais em caráter temporário, por medida judicial. Crianças com problemas de carência afetiva ou com problemas de transtorno de comportamento foram submetidas à terapia em grupo onde o mediador era o conto de fadas. A terapia era parte da política de saúde na França para promover a reaproximação com os pais. Segundo o pesquisador, as crianças tratadas progrediram significativamente. Um dos resultados foi incrementar o vínculo delas com o educador que assumiu o papel de representante, mas não substituto, da figura materna. “Além disso, por meio das histórias, pudemos manter viva a figura da mãe, a imagem da família, da qual eles estavam afastados”, explica. “A hora da leitura é um momento especial onde a criança recebe atenção total de seus pais, por isso é muito importante para ela. Os contos são um momento de aproximação que proporcionam um encontro real com o outro”, completa.

Shrek x Encantado

O que é monstruoso ou o que gera medo varia de uma pessoa para outra, conforme a família, a cultura, a época. Na opinião de Gutfreind, violência, insegurança, solidão são os grandes medos dos nossos dias. “Nossa época é um tempo de grande quebra de vínculos. Dependendo do que nos amedronta, nos identificamos com um ou outro personagem”, diz ele. Ocorre, portanto, um processo de identificação muito particular que faz com que um monstro absolutamente ameaçador para uma criança, faça outra rir. Um exemplo dessa inversão acontece com a pequena Boo do filme Monstros S.A. . Ao invés de se assustar com a dupla de monstros Mike e Sullivan, a menina se afeiçoa a eles. O filme mostra ainda como as crianças de hoje não se assustam com qualquer coisa.

Outro exemplo de inversão está na trilogia Shrek onde os papéis de príncipe e monstro são trocados. O ogro é o herói e o belo cavaleiro é o vilão. Para Diana e Mário Corso, o que importa é que a ficção seja capaz de fazer a criança pensar e a faça ir adiante, que forneça elementos para que ela, ao mesmo tempo, solte sua imaginação e resolva seus conflitos. Segundo eles, a ficção que criamos e consumimos é eloqüente, ilustrativa, de um tempo e sua gente. As histórias infantis não prosperam se o que elas têm para oferecer não for o que serve ao seu público. Uma característica em comum de novos produtos culturais como Shrek e Harry Potter e os contos de fadas é que eles tentam atingir pais e filhos, permitindo um diálogo entre as gerações. O medo do desconhecido continua por toda a vida, assim os adultos também precisam de metáforas para lidar com isso. A diferença é que no adulto a capacidade de diferenciar o que é real do que imaginário é mais desenvolvida.

A imaginação é um instrumento fundamental de elaboração e construção da nossa identidade. Sair de casa, expulsa pela madrasta, enfrentar um ogro, encontrar no amor a solução de todos os males, travar uma luta mortífera com figuras poderosas e aventurar-se na floresta, virar comida de uma bruxa; situações aparentemente absurdas podem ilustrar nossos conflitos inconscientes. “O mundo pode ter mudado totalmente, mas tornar-se mulher ou homem, assim como enfrentar o crescimento e a morte ainda são nossos problemas. No que diz respeito a essas questões, tudo mudou para que pudesse continuar do mesmo jeito”, finalizam Mário e Diana Corso.

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