Sobre contos de fada

 

Elenore Plaisted Abbott (1875-1935) Maine, United States

“Não, não devemos ter receio de levar o maravilhoso às crianças” essa frase de J. P. Stahl está no prefácio dos Contos de Perrault de 1883 e completou 126 anos. Sthal como estudiosos da psicologia infantil modernos se entendem no aspecto da fantasia necessária à infância ainda que mais de um século os separem. Se levarmos em consideração que no século XIX, quando a frase foi escrita, a educação nos parece bastante rígida nos moldes tradicionalistas, que tanto se teme hoje, veremos que a visão do universo infantil encontrava um avanço nas palavras do prefaciador de Perrault. Mas o universo infantil é muito mais antigo e a infância conservadora no sentido de que se vive nela os mesmos anseios e dramas há séculos. Podemos entender também que os medos infantis são os mesmos e que se repetem a cada geração. Uma prova irrefutável disso se encontra em uma das fábulas de Esopo. Nela a ama tentar silenciar uma criança chorona ameaçando-a de chamar o lobo para levá-la. O lobo, que ouvia a conversa e estando faminto, alegrou-se da ameaça e postou-se à janela a esperar sua refeição, que não veio, pois cessara o choro. A ama, agradecida, disse enérgica que se o lobo chegasse teria de se ver com ela defendo seu bebê. O animal assustado pôs-se a correr. Se há 500 anos antes de Cristo essa criança emitia um comportamento completamente compatível com padrões atuais, é porque a infância possui uma característica imutável e universal. A ama agiu como ainda hoje muitos adultos agem, pois sabem de antemão que a criança teme pela sua integridade física (um temor básico). A criança tem a capacidade de crer. Se dissermos a ela que o lobo mau ou o bicho-papão virão buscá-la, ou que papai Noel existe ela não questiona, crê. Assim o é com as fadas, animais falantes, duendes, bruxas e outros personagens dos contos de fada. Muitas delas nunca viram um castelo e se encantam com a presença deles em muitos contos sem questionar sua existência. Talvez o fator “conservadorismo infantil” garanta à literatura fantástica presente nos contos de fada o seu sucesso através dos séculos.

de se apresentar nesses contos a vida em forma de fantasia não significa tapear ou enganar a criança. A vida é por demais estranha a ela e sua forma de ver o mundo é através da fantasia. Nesse sentido os contos são criações sábias, pois possuem a capacidade de dialogar com o mundo infantil de maneira criativa transformando-se assim em um elemento terapêutico trabalhando as angústias, tristezas e perdas que acontecem e fazem parte de nossa vida.Entenda-se que ao contar uma história não estaremos a fazer terapia e sim agindo de forma terapêutica, acalmando, dialogando, exercendo sobre a criança uma ação extremamente humana. Uma espécie de uma catarse quando se poderá, naquele momento, vivenciar e trabalhar entimentos de piedade, prazer e desprazer, bem como possíveis traumas acumulados já em tão pouco tempo de vida.

Assim como os contos de fada, os jogos infantis, ao que parece, são também universais comprovando que a infância “é a mesma” em épocas diferentes. Toda criança joga e em qualquer século. Em um famoso quadro do século XVI, Pieter Bruegel pintou uma cena chamada Jogos Infantis, na qual ele nos mostra pelo menos 84 tipos diferentes de jogos da época sendo que alguns deles jogados até hoje. “Um verdadeiro estudo antropológico das atividades lúdicas das crianças flamengas do século XVI. Os jogos não comportam alegria: nenhuma criança ri”. (Gênios da Pintura – 1980). Pode parecer estranho que nenhuma criança sorria, mas à época em que foi pintado o quadro, crianças eram consideradas pequenos adultos, a infância uma parte muito pequena da vida, e a obra do pintor é por demais sombria. No entanto a atividade representada é tal que o tema fala por si só. As atividades frenéticas não correspondem à sobriedade dos rostos. Os contos de fada são uma espécie de jogo dentro do qual a criança se posiciona de acordo com a conveniência do tema, com a solicitação do momento que está vivendo. Ela é o personagem principal, o herói que percorre o caminho até o resgate final.

Estamos na era da comunicação e o século XX sua era de ouro. Os computadores e outros artefatos eletrônicos ameaçaram roubar o espetáculo dos contos maravilhosos. No entanto toda a parafernália eletrônica não foi capaz de ocupar o lugar das histórias infantis tradicionais que povoam a mente de crianças do mundo inteiro. O que pode ter acontecido é que os contos foram deixados de lado porque há uma nova configuração da família. Essa atividade doméstica, de contar histórias, está relegada a um plano inferior, pois a família mudou. A questão econômica retirou dos lares, por muito mais tempo, pai e mãe que tinham uma presença maior em casa. O hábito de contar histórias era uma realidade do cotidiano familiar. Adultos e idosos, que até então eram fonte de conhecimento, se viram relegados também a um segundo plano nesse sentido. A terceira idade retinha um saber que o mais jovem não possuía e entre eles encontrava-se os contos da tradição oral além, de casos fantásticos e, é claro, a experiência de vida. O mais velho retém um saber que interessava à criança.

O contato da infância com outra geração mais velha é importante na medida em que humaniza as relações retirando de artefatos artificiais mecanizados a fonte principal de conhecimento como acontece hoje com os computadores. Contar história envolveria, então, uma relação harmônica entre gerações solidificando o papel do adulto como o de autoridade que a criança, os mais jovens, tanto busca ainda que se oponha a ela.

Quando um adulto dispensa à infância um tempo para a narração de um conto, alguns fatores podem ser observados. Um primeiro, a afetividade. Está nessa hora, sendo dispensada atenção à criança e ela sente isso e agradece, pois o ato de contar histórias está impregnado de afetividade. É como se ela recebesse um presente. Sobre isso Lewis Carol observou em um poema “Criança da pura face sem névoas/E sonhadores olhos de espanto/Embora o tempo seja veloz/E meia vida separa você e eu/Seu adorável sorriso bem certo saudará/O presente de amor de um conto de fadas”. [1] A meia vida que separa criança e adulto encontra uma mediação no ato de contar histórias. Aí as diferenças existem como fatores para a solidificação das relações. Diferenças que fazem exatamente o encontro entre esses dois mundos. O adulto domina um vocabulário e uma técnica narrativa que faz com que a criança se envolva e se entregue ao ato de ouvir tão necessário ao aprendizado.

Ao narrar, o adulto se coloca como autoridade, pois além de dominar um vocabulário demonstra conhecimentos que vão além do real e do imediato fora da esfera pragmática do cotidiano. Na imaginação infantil surge uma questão em decorrência dessa habilidade adulta -”como reter tanta informação?” Tal fato desperta na criança admiração e respeito pela figura do adulto. A comunicação acontece satisfatoriamente. A relação adulto/criança segundo José Fernando Miranda, “é cada vez mais delicada e exigente”. O adulto não atua somente pelo que diz – mas por aquilo que realmente é. Os aspectos da sensibilidade são os que mais influenciam e interessam a criança. A ela não conta a competência profissional do professor e sim sua capacidade de comunicar e ser sensível, de compreender e aceita-la. Nem tão pouco o fato do adulto ser correto, ético, mas de corresponder no mundo real coerentemente ao que apregoa. A criança é um ser intuitivo capaz de ler nas entrelinhas, de entender o não dito.

Um outro aspecto encontra-se na pausa que deve ser dada para a narração. O tempo do conto é o tempo em que os afazeres corriqueiros são esquecidos momentaneamente e a relação adulto/criança se fortalece. Há uma percepção diferenciada do tempo que estimula o bem estar inclusive físico. É também a pausa para o descanso. A criança aprende que se faz necessária uma postura intelectual e física, diferenciada daquela que geralmente apresenta no dia a dia, para escutar. Isso será de fundamental importância na vida escolar.

Nessa atividade há também a importância do contato com a linguagem muitas vezes característica e particular aos contos. As palavras são observadas pela criança, o que pode ter influência benéfica no processo de alfabetização e, mais tarde, no gosto pela leitura. Estruturas gramaticais, vocabulário e entonações de voz compõem uma situação na qual adulto e criança se envolvem dando dimensões novas ao contato mútuo incentivando e vivenciando situações lúdicas. Expressões como Era uma vez… Houve uma vez um tempo… Levam à imaginação da criança uma outra dimensão. Uma dimensão mágica e diferenciada dos apelos televisivos, principalmente, que roubam a chance de se poder imaginar o que é transmitido oralmente. Em muitas histórias irão surgir personagens que não fazem mais parte do nosso tempo onde as necessidades econômicas são outras daquelas do tempo do conto. No entanto até esse aparente anacronismo torna-se importante, pois nos contos de fada há um registro histórico. Algumas vezes surgem personagens como moleiro, hortelão, príncipe, princesa que, se fazem parte algumas do nosso vocabulário corriqueiro, outras são por demais anacrônicas. É justamente esse anacronismo um importante elemento para que o mais jovem assimile uma característica típica do adulto, segundo Neil Postman, – preocupação com a continuidade histórica.

No adulto concentra-se a narrativa, ele dá o tom da história e promove a atenção da criança. Essa atividade que já foi prática comum em nosso meio tende a desaparecer com a nova configuração da família e a perda da tradição oral. Gilberto Freire em Casa Grande e Senzala nos informa que no interior do Brasil do século XIX havia uma preocupação das famílias em fornecer às suas crianças essa oportunidade de ouvir histórias. Eram chamadas aki-palôs.   “O akipalô é uma instituição africana que floresceu no Brasil na pessoa de negras velhas que só faziam contar histórias. Negras que andavam de engenho em engenho contando histórias à outras pretas, ama dos meninos brancos.”[2]  Essa atividade como atividade doméstica pode sim desaparecer, porém os contos de fada continuarão, pois são criação do inconsciente coletivo, nos falam em linguagem arcaica e simbólica de elementos que agem diretamente ao sentimento e não à razão.

Certamente a mídia eletrônica interfere em muito na percepção de mundo. Quando a história é narrada a criança imagina, cria sua concepção de mundo e elabora esteticamente os personagens. Na era da comunicação as imagens são dadas impedindo que haja uma criação ou elaboração de dados que seriam criados pela mente infantil.

É preciso pensar que a sociedade caminha para uma dependência cada vez maior do aparato tecnológico. Os games, mini-computadores e celulares polivalentes e outros tantos engenhos da modernidade interferem em nossa percepção de realidade.Criam um mundo do individual voltado para uma comunidade egoísta. Produz-se outra cultura a partir dessa nova forma de se viver e perceber a vida. Porém o que há de simbólico e humano será sempre buscado, pois é impossível ao ser humano conviver sem seus símbolos. Os contos de fada são, em última análise, um compêndio para que a criança entenda o complicado mundo em que vive rodeado de adultos, que nem sempre são a garantia de sua proteção e felicidade,

Para o jurista e psicanalista Rodrigo da Cunha Pereira, a primeira Lei é uma lei de família, uma lei que atribuiu ao ser humano a característica de poder criar cultura. A necessidade de se instalar regras para o convívio humano impôs-se de maneira a agrupar os indivíduos não apenas para satisfação básica de instintos, mas para satisfação da necessidade de afeto. Era a lei do pai. Daí surgiu o grupo familiar, unido por laços afetivos. E é justamente família o tema natural e central dos contos de fadas. É desse material que são criados. Quando num desses contos há a presença de reis e rainhas o simbolismo é justamente pais e mães como príncipes e princesas são filhos. Na linguagem coloquial do nosso cotidiano referimo-nos sempre ao simbólico. Ainda que anacrônica a expressão “rainha do lar” subsiste bem como “meu rei”, “meu príncipe encantado”, e é comum ligarmos nossas crianças a príncipes e princesas. Então, existe uma ligação entre linguagem e contos de fada que é bem clara e que, apesar de toda era tecnológica, não perdeu sua significação.

A família é a primeira referência de mundo para a criança. Nela se desenrolam os dramas da existência e nela assimilamos a realidade. Nossa visão de mundo e percepção ética da vida tem sua base na família. Para a criança, ser abandonada pelos pais (entes queridos), perder a integridade corporal e a eliminação do convívio são medos básicos que geram muita ansiedade. A prova disso é que pais que se atrasam para buscar seus filhos nas escolas são surpreendidos, muitas vezes, com o choro compulsivo e desesperado daqueles acreditando terem sido esquecidos. Nesse momento o sentimento de perda é vivido com intensidade. São desses medos e sentimentos que os contos de fada tratam e que podem ter, por esse motivo, um valor terapêutico. Nesse aspecto ajudam a criança a conviver e vence-los. Como equivalentes aos contos estão as cantigas de ninar que falam de bicho-papão em cima do telhado, boi-da-cara-preta que vem pegar neném, cucas, mas que, na doçura de um acalanto tratam de amenizar esses medos. Justamente porque falam dos medos na voz de um adulto cuidadoso é que os bebes adormecem sem se apavorarem com personagens macabros, pois sabem que esses monstros não vão tocá-los enquanto se sentirem protegidos. A criança internaliza, sente que existe proteção através das cantigas. Às críticas que se fazem a respeito delas contrapões-se o resultado desse ato:- Crianças dormem melhor, mais tranqüilas quando acalentadas pela voz materna ainda que o conteúdo das cantigas contenha monstros.

Com o desenvolvimento e transformação da economia, a família tomou um novo formato. O espaço da casa mudou seu foco. A sala, antes local de encontro bem como a mesa à hora do almoço, tornou-se o local da televisão em muitos dos lares ocidentais. Por essa e outras razões a atividade de contar histórias reduziu-se. Provavelmente muitos dos pais jovens de hoje não ouviram histórias de seus pais. Às escolas ficou relegado esse papel. Nela ou em algumas delas, preserva-se essa atividade que, pode despertar na criança o sentido de humanidade roubado pelo contato constante com a tecnologia.

A pergunta que se pode formular é:- Por que com toda essa parafernália tecnológica crianças ainda se encantam com contos de fada? O lobo, a bruxa, a fada povoam a fantasia de crianças pelo mundo afora. A resposta pode estar no símbolo. Para a Psicanálise o conhecimento do símbolo é inconsciente e fala diretamente à sensibilidade, ao subjetivo mais que à razão. Esse fato deve garantir a ampla aceitação por crianças, que nunca viram uma fada, castelos, nunca estiveram em florestas ou enfrentaram lobos ou gigantes, dessas histórias repletas de fantasias e acontecimentos mágicos.

Há em alguns deles questões ligadas ao Direito de Família como quem ficará com a herança. Quem herdará o castelo ou sucederá ao pai (na função de rei). Esses temas são trabalhados e resolvidos de maneira a regular as tensões da infância. No final,geralmente, há um resgate da situação após provas difíceis e complicadas ou de injustiças que são sanadas num desfecho garantido a felicidade do herói/heroína

Se o material dos contos de fada refere-se basicamente às relações familiares, devemos lembrar que conflitos familiares envolvendo pais e a rivalidade entre irmãos é bastante real e trabalhada, nem tão simbolicamente assim, nesse tipo de literatura. Histórias em que o irmão mais novo é desprezado pelo mais velho, ou que uma irmã é preferida causando inveja, ou ainda a mãe (ou madrasta) tem claras preferências por sua filha biológica são temas recorrentes.

O material dos contos de fada também é o material dos sonhos. “Os pais aparecem em sonhos como imperador e imperatriz, rei e rainha ou outras personagens respeitadas; com isso, os sonhos evidenciam muito respeito filial. Tratam, porém com muito menos ternura os filhos, os irmãos e as irmãs: esses são simbolizados como pequenos animais ou bichinhos”.[3] Carl Gustav Jung, afirma que …“os contos de fadas, assim como os sonhos , são representações de acontecimentos psíquicos. Mas enquanto os sonhos apresentam-se sobrecarregados de fatos de natureza pessoal, os contos de fadas encenam drama da alma, com materiais pertencentes em comum a todos os homens…”[4]

Vingança, perda, competição, astúcia, abandono, são acontecimentos do dia a dia que fazem parte do universo infantil e são bem entendidos à luz da linguagem simbólica que os contos maravilhosos proporcionam. Por isso, segundo Bruno Betthelheim, “o valor do conto de fadas para a criança é destruído se alguém detalha os significados…”, pois devem ser compreendidos ou assimilados através da percepção inconsciente que não pede explicações formais. Geralmente a criança ouve a história em silêncio e pode, algumas vezes, solicitar algum esclarecimento que deve ser dado com cuidado para que o adulto não destrua o significado original da cena ou do personagem.

Há uma tendência atual de se reinterpretar os contos de fada em nome do politicamente correto alegando que pudessem ser transmissores de preconceitos e visões deturpadas de nossa cultura. A meu ver um erro. Os contos trazem linguagens milenares percebidas pela criança como forma de trabalhar dramas interiores pessoais. Ela aprende muito mais pelo exemplo dos mais velhos que pela palavra, mesmo porque o adulto é moralmente inconsistente e suas ações são avaliadas pela criança. Dos contos elas absorvem um mundo simbólico inatingível pela razão. Daí a importância do conhecimento teórico sobre o tema principalmente por parte dos educadores. Alguns valores presentes nos contos são geralmente despercebidos por esses críticos. Solidariedade é um deles. Em várias histórias há exemplos de altruísmo e bondade. Alguns personagens chegam a desafiar perigos imensos para ajudar ou salvar entes queridos.

A desconstrução desses textos interfere negativa e diretamente numa cultura milenar, pois a forma como os conhecemos hoje são transformações de mitologias antigas. Perrault, Grimm e outros não são exatamente autores dos contos, mas sim coletores dessas tradicionais formas de relatos que foram preservados pela tradição oral em função da alfabetização ser pouco disseminada em eras passadas e também porque faziam parte das atividades domésticas. Os contos são testemunhas do comportamento humano e da capacidade do ser humano de trabalhar e resolver conflitos através de recursos lúdicos.

Se por um lado a presença de personagens como Chapeuzinho Vermelho pode ser interpretada como modelo de submissão e obediência da mulher, por outro há figuras masculinas que demonstram uma fragilidade inadmissível para uma sociedade machista herdeira do patriarcalismo. Assim também como figuras femininas que detem poder vencendo pela astúcia ou pela magia como no caso das fadas e bruxas e de mulheres que conseguem ludibriar seus maridos gigantes antropófagos. Figuras masculinas de reis, por exemplo, são personagens que, geralmente, surgem inseguras, incapazes de reconhecer os ardis de suas esposas contra personagens infantis podendo ser facilmente enganadas. No caso da história Irmão , Irmã (ou o gamo encantado) a irmã é quem consegue dominar e salvar o irmão devolvendo-lhe a forma humana (alterada para um gamo pela bruxaria) após várias provações mantendo-se fiel a seus princípios morais enquanto o irmão dá vazão aos instintos naturais incapaz de lidar com a frustração ou de adiar satisfação (características da vida adulta). N’ Os Cisnes selvagens, é também a irmã quem consegue reverter a situação da feitiçaria de uma bruxa (madrasta) que o rei/pai não pode visualizar, transformando seu irmãos em cisnes. Devemos nos lembrar que a figura masculina é historicamente agressora e os contos espelham o mundo real através do simbólico. Homens tradicionalmente são os caçadores e intimidadores. Mas nos contos de fada é possível apresenta-los como aparentes donos da situação, mas também como seres ingênuos vencidos pela astúcia de meninas frágeis e crianças sem força física, mas portadores de inteligência e criatividade. Vencer o adulto pela astúcia, essa seria a grande façanha da infância. Homens e mulheres são apresentados como detentores de virtudes, mas também de vícios.

A luta do gigante com João (d’o pé de feijão) deixa claro uma relação familiar, de luta entre o poder do adulto/masculino com a criança, aparentemente indefesa e a incompreensão materna. Isso se observarmos a história pelo lado simbólico. A família é composta pela mãe e pelo filho – João. Não há referência a um pai. Mas há a presença de um gigante, enorme e feroz que habita um outro mundo acima do ambiente dessa família reduzida . Um ser quase divino habitante das nuvens em um castelo sem ser rei mas com poderes de um. Mas lá também, nesse ambiente mitológico há uma esposa que engana, através de omissões, o marido/gigante (para esconder João). Aparentemente essa esposa é, também, tiranizada por ele. Simbolicamente poderíamos interpretar essa grande figura ameaçadora masculina como o pai. Em quantas famílias hoje podemos rever essa dinâmica do marido agressor tendo como vítima preferencial a mulher? Faz-se necessária até uma lei específica – a Maria da Penha – para tentar abrandar a situação em pleno século XXI quando essas temáticas deveriam ser consideradas anacrônicas. No entanto é o pequeno João, considerado pela mãe tolo a principio, quem salva a situação trazendo para a casa o sustento e a riqueza conseguidos a custa da astúcia e coragem. As duas figuras masculinas –João e o gigante- representam os dois lados de um mesmo ser masculino. Um bondoso e carinhoso , o outro terrível e cruel. Um que agride e outro que provê. É a dualidade de nossas ações demonstrando nossa capacidade para a criação ou para a destruição.

O Barba azul, outra história que nos remete a violência do masculino e da desobediência da mulher. Em muitos contos a heroína desobedece. Assim como no mito da criação do Gênesis, a mulher é apresentada como frágil, passível de ser levada por paixões ou incapaz de enxergar o perigo. Muitas dessas personagens abrem portas proibidas colocando sua vida em risco e despertando a ira do marido/pai diante da transgressão a uma proibição. No entanto a própria desobediência é um sinal de não submissão que dispara toda a trama para que ao final haja o resgate da situação.

O adulto surge nessa literatura muitas vezes como um ameaça. O escritor americano Stephen King afirma que “muitos dos contos de fadas são mal disfarçados ataques contra os pais.” [5]Por isso mesmo são tão importantes para o universo infantil uma vez que abordam a questão das relações entre gerações de maneira a visualizá-la sem traumas. Um exemplo disso está na história de João e Maria. Abandonados pelos pais para que morra na floresta, a dupla sobrevive graças a astúcia dos personagens. Ainda sobrevivendo ao abandono encontram outro adulto, desta vez na figura da bruxa, com uma promessa de vida melhor (a casa de doces) que se mostra posteriormente como mais um desafio à sobrevivência. Que pais poderiam abandonar seus filhos de maneira tão cruel? A resposta está na realidade de nosso mundo, nas páginas policiais. Adultos são uma ameaça à infância, mas são também, por outro lado, a segurança de uma vida íntegra. Outro exemplo seria a história de Rapunzel. Nela os pais apresentam-se como inescrupulosos ao prometerem a filha a uma bruxa, assim que nascesse em troca de pequenos desejos maternos que poderiam ser adiados ou evitados. Um adulto deve ser capaz de adiar satisfações ou evita-las caso a situação assim o exija. A importância dos contos de fada é exatamente a capacidade de mostrar à criança a existência do mal de maneira que ela possa assimilar esses aspectos por demais verdadeiros e presentes no seu cotidiano sem traumas. As crianças precisam acreditar  que os adultos têm controle sobre seus impulsos para a violência e que têm uma concepção clara do que é certo e errado[6]. Assim, o exemplo de comportamentos inadequados por parte de um adulto nesses contos aponta para uma interpretação, por parte da criança, de um mundo incoerente que por algumas vezes oferece perigo a sua existência sem, contudo questionar a autoridade que o adulto deve ser.

“Todos os bons contos de fada têm significados em muitos níveis; só a criança pode saber quais significados são importantes para ela no momento[7], essa afirmativa fica evidenciada quando determinados contos demonstram ser a preferência de uma criança. Algumas chegam a solicitar a repetição exaustiva exigindo a mesma forma de relato sem alterar nenhum dos elementos. Muitas vezes o adulto (geralmente o contador), que pretende encurtar a história, é pego de surpresa quando o ouvinte protesta alegando ausência de cenas ou de personagens.

Há ainda a questão do mito do herói. Em muitas lendas e contos de fada o herói é abandonado ou passa por alguma metamorfose para, depois, surgir em forma nobre ou em situação vantajosa de poder. Assim foi com Moisés abandonado no Nilo surgiu como salvador do povo judeu, Édipo condenado a morte por seus pais foi abandonado em uma floresta, mas salvo por um pastor; Branca de Neve abandonada em uma floresta; Joãozinho e Maria com a mesma sorte. Modernamente poderíamos apontar para o mito do Super-homem também abandonado em um planeta distante (a Terra) surge depois como um salvador. O patinho feio, outro exemplo onde de protagonista desprezado, é um filhote feio, desengonçado que passa por uma metamorfose após ser humilhado pelos pares para ressurgir como um animal nobre e belo, o cisne.

As provações são freqüentes e muitos personagens são obrigados a tarefas sobre-humanas para serem redimidos ou reconhecidos. Assim, em Os cisnes selvagens a irmã é condenada a tecer com urtiga onze túnicas para vestir seus irmãos, ser tomada por feiticeira e sofrer todo tipo de humilhação. Mas ao final tudo se ajusta e ela consegue não só a sua libertação, mas como também a de seus irmãos. O exemplo de Pele de Asno é dramático. Para fugir ao assédio do próprio pai refugia-se em uma pele de um asno que a transforma em uma figura asquerosa vítima de zombaria e assim é obrigada a viver até que tudo se resolva positivamente.

Os personagens são em número reduzidos. Há um rei, uma rainha, príncipes, princesas, objetos mágicos, animais auxiliares. Pouco difere de um conto a outro. “Não há pessoa humana dentro das narrativas, mas representações de aspectos cruciais com que o leitor/ouvinte pode identificar-se ou ver o outro”. [8]

O ato de contar histórias já foi uma atividade doméstica por excelência. Nela mais velhos demonstravam que detinham um saber e o passavam aos mais novos. A questão é que existe um conhecimento relativo ao universo infantil distante de um conhecimento adulto como os segredos sexuais, por exemplo, e a aquisição da leitura e da escrita para citar apenas dois fundamentais. Assim também ocorre com os contos de fada que estão sob o controle de adultos. Certos conhecimentos chegam à infância em determinadas épocas propícias, antecipá-las é um perigo. A mídia eletrônica, tão útil e versátil, pode intervir negativamente nesse aspecto quando utilizada de maneira indiscriminada.

O espaço da infância é o espaço do brinquedo, do lúdico. Talvez por isso mesmo os contos de fada façam sucesso entre as crianças que se identificam com os heróis, sofrem com as perdas, mas se rejubilam com o final feliz (afinal é o que todo mundo quer). Percebem claramente e se identificam com a capacidade dos personagens de se reerguerem e vencer a inconsistência moral dos adultos.

 



[1] Bruno Bettelheim, A Psicanálise dos Contos de Fada – Paz e Terra – 1980

[2] Freire, Gilberto, Casa Grande e Senzala.  Ed. Record. 2001

[3] Freud, Sigmund. Obras completas páginas 183, 184 – volume XV.

[4] Coelho, Nelly Novaes – O conto de fadas – DCL Difusão Cultural do Livro –  2003

[5] Stephen King Dissecando Stephen King – 1995

[6] Neil Postman – O desaparecimento da Infância – 1999 Ed. Graphia

[7] Bruno Bettelheim, in A Psicanálise dos contos de fada – 1980- Paz e Terra.

[8] José Fernando Miranda in Estória infantil em sala de aula – Livraria Sulina Editora Porto Alegre RS 1978

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