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Ilustração de Gustave Doré

A cena acima retrata uma situação comum até meados do século XX. Uma família reunida para ouvir, no caso, histórias. Quem conta é uma anciã que tem em torno de si crianças e pré adolescentes.Pelo trato dado à cena, os jovens largaram os brinquedos momentaneamente e se dedicam a ouvir. No rosto de cada um há uma expressão de assombro, surpresa. Todos estão atentos. A hora do conto, a “contação” de história era uma atividade doméstica por excelência. Uma atividade que estreitava os laços entre os membros da família e que despertava o interesse e a curiosidade da criança e do jovem pelo adulto e pela leitura, enfim. Ainda que a narração acontecesse sem a presença de um livro, a palavra é a ferramenta que mais tarde a criança percebe que aquela história pode ser registrada, escrita, fixada através de um ato que ela deve dominar. Para a criança que ainda não sabe ler, o livro é um desafio a ser vencido. Ouvir é um começo.

De volta à gravura de Gustave Doré, imaginemos que o tema da leitura seja um conto de fada, ou uma história fantástica, um suspense. O tema pouco importa. O que se coloca em primeiro plano é a capacidade de interação entre os membros da família. Naquele momento todos se envolve num ato, no mesmo ato:-ouvir o que o outro tem a dizer.

O outro é um adulto que pela idade é autoridade e tem o domínio da ação. As crianças prestam atenção e se envolvem. O adulto deve ter essa capacidade de se mostrar autoridade, de ter o controle de situação para que a criança se sinta protegida, confiante de que tem diante de si uma autoridade. Por autoridade entende-se   7  Condição de credibilidade e prestígio baseada na excelência, na qualidade, na acuidade e atualidade das informações, argumentações, análises etc. que apresenta (Caldas Aulete).

A criança aprende observando, imitando e repetindo. O mundo adulto que a cerca é cheio de exemplos. Exemplos de palavras, de atitudes, de gestos (pequenos e grandes) que vão com toda a certeza, moldar a sua personalidade e, conseqüentemente, sua reação diante da vida. A sua representação de mundo passa pelo convívio com a autoridade.

Quando o adulto se reúne com crianças para uma narração, ele está se colocando como um elo entre a criança e um mundo imaginário, fantástico que pode incentivar a criatividade, a curiosidade e a percepção de que aquele adulto é dono de uma capacidade intrigante:- Ele sabe contar histórias, sabe repeti-las; faz uso da memória e, enfim, torna-se autoridade diante dela. Outros fatores que demonstram a autoridade do adulto é a sua coerência diante de fatos do cotidiano; a imposição de limites com firmeza; a sustentação de suas promessas e determinações. Mas, também, a capacidade de reconhecer o erro (adultos erram muito), de ser afetivo; de demonstrar carinho, de ser correto nas palavras.

O fato de contar histórias torna-se, então, importante porque demonstra que naquela hora o adulto se entrega para a criança. A paciência é uma exigência para se lidar com a infância. Crianças não respondem sempre a uma expectativa. Elas são de espírito livre e por isso querem brincar. O momento da infância é para o brinquedo que é uma das formas de aprendizagem. Ouvindo histórias elas aprendem fantasiando, imaginado e criando ou fortalecendo, ao mesmo tempo os laços afetivos.

Até bem pouco tempo o adulto era uma fonte de conhecimento que foi substituído pela internet. O idoso era uma entidade, quase um arquivo de conhecimentos e sabedoria porque os tempos eram outros. Os tempos mudaram e a tecnologia avançou.

A imagem abaixo

Já mostra outro enfoque, outra época e outra família. Aquela família do século XIX tinha como recurso tecnológico, o livro. Essa do século XX possui algo mais, a televisão que emite imagens. Principalmente imagens. E “…a televisão não é um livro e não pode nem expressar o conteúdo ideativo que é possível na tipografia nem promover as atitudes e a organização social associadas com a tipografia.” Se as palavras de Neil Postman são corretas, a organização social sofre interferência da tecnologia principalmente da mídia eletrônica.

Evidente que a leitura por si só não salva lares nem garante um relacionamento harmonioso. O que ocorre é que a infância precisa de atenção que a TV, embora pareça dialogar todo o tempo com o espectador, não  consegue suprir. A palavra escrita, a leitura não devem ser substituídas pela máquina de oportunidade imediatista que é a televisão.Claro que nela encontramos um instrumento importante de comunicação, tão importante que mudou e dita o comportamento de uma sociedade inteira. O que vestir, o que comprar, pra quem torcer, tudo está na tela da TV. Os comerciais são pequenas parábolas sobre a família, o amor, o trabalho enfim todos os âmbitos possíveis da vida social. Eles apresentam estilos de vida que devem ser copiados. O bem estar do seu filho dependerá se você abrir uma caderneta de poupança em tal banco; sua família estará feliz e segura em um carro da marca X e o seu perfume fará de você um ser desejado(a).

Os modelos vêm daí, a partir dessa mitologia eletrônica que acaba por hipnotizar toda uma geração.

Comercial de brilhantina dos anos 50 da revista Manchete

A família mudou porque o mundo mudou. O comercial aoacima, que mostra um modelo de família dos anos 50, seria inadmissível hoje. A própria feição de seus membros é a mesma, todos muito parecidos e comportados. Praticamente são todos iguais “todos penteados”. Uma novidade que a modernidade trouxe foi respeitar a individualidade de cada um e trouxe também um afastamento causado pelo uso de aparelhos eletrônicos como o celular, a tv, o computador e, apesar deste ultimo ter a capacidade de unir através do correio eletrônico, dá a ilusão de que estamos rodeados de amigos. O facebook é uma rede social, como o Orkut, que fornece essa ilusão de estarmos vivendo em uma sociedade muito próxima, muito interativa e comunicativa. É muito comum as observações de “tenho tantos amigos no facebook” como se isso fosse garantia de uma relação verdadeira mas que não passa de um arranjo virtual.Sempre criticamos nossos avós pelos casamentos sem amor, arranjados com desconhecidos, apenas pelo gosto dos pais. No entanto as pessoas se conhecem, ou acham que se conhecem, através das redes sociais e se apaixonam pelo computador e muitas vezes se casam, outras com desfechos nada românticos.

Aparentemente uma das causas do banimento dos contos de fadas do seio familiar foi a entrada definitiva da eletrônica no cenário mundial. Quando eu digo banimento baseio-me em dados coletados nos meus 25 anos de educação trabalhando com crianças, jovens e adultos. Já conheço adultos que não ouviram histórias de fadas ou bruxas, lobo ou de reis e rainhas que são personagens típicos dessas histórias.

O livro didático mudou na direção de uma efemeridade talvez necessária para atender a um mercado e uma visão consumista de mundo. Os textos bem como as ilustrações se infantilizaram e perderam em qualidade. É evidente que as demandas são outras, mas a questão da arte atravessa os séculos e não julgo ser necessário banir também ilustrações de qualidade.

Os desenhos animados tomaram o lugar dos contos de fada, mas não os substituíram em hipótese alguma.

O que ocorre é que a infância necessita ouvir histórias e clássicas dentro do padrão daquelas que se contavam nos serões porque nelas se encontram valores e questões que a TV não aborda e não tem como abordar. É bom para a infância escutar e ler poesias de clássicos da literatura brasileira. Ouvi certa vez de uma professora de Língua Portuguesa de escola pública em BH a frase “não adoto Monteiro Lobato porque saiu de moda”. Se ela estivesse a questionar que Monteiro Lobato é preconceituoso talvez a indignação seria apagada pelo legitimo que essa questão traz. Mas a palavra moda indica o quanto está sendo levado para o campo do consumo questões como literatura.

Contraditoriamente, as escolas é que tem tratado de manter viva  a tradição de contar histórias ainda que com atitudes equivocadas .Por exemplo a atividade dada por uma professora em escola particular sobre Branca de Neve na qual questionava, em nome do politicamente correto, se Branca de Neve poderia ter entrado na casa dos sete anões sem a presença deles, ou sem pedir licença. Segundo Bruno Bethelheim, não se deve destruir assim os contos, pois muda totalmente a sua estrutura e conseqüentemente a mensagem subjacente que ele traz. Perde, então, o seu valor literário em função de uma novidade trazida por uma sociedade que despreza a idade desses contos (são seculares) e por anos e anos tem tido a capacidade entreter e divertir crianças do mundo todo.

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