Mulheres e Cerveja

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Mulheres e comerciais de cerveja

Por Lucio Antunes em 06/02/2007 na edição 419

Em 1891, Lord Henry, personagem do Oscar Wilde em The picture of Dorian Gray, dizia: “Meu caro rapaz, nenhuma mulher é um gênio. As mulheres são um sexo decorativo. Elas nunca têm nada a dizer, mas o dizem de forma encantadora. Elas representam o triunfo da matéria sobre a mente, assim como nós, homens, representamos o triunfo da mente sobre a moral.”

Mais de cem anos se passaram e, nesta época e lugar onde a televisão tem substituído o papel para falar às massas, os comerciais de importantes itens de consumo, como o automóvel e a cerveja, expressam o mesmo valor ideológico reservado às mulheres que aquele esboçado por um comentário machista – ainda que caricato e satírico – pertencente ao final do século 19.

O ódio ao feminino

A insistência na representação da mulher como um “sexo decorativo”, baseada em uma demanda capitalista pelo lucro, torna-se ainda mais condenável e vergonhosa porque age como um rolo compressor sobre os valores culturais associados à igualdade e à dignidade da mulher, conquistados através de incessantes lutas, árduas e até dolorosas, pois envolveram muita renúncia e sacrifícios, durante todo o século 20 e o início deste novo século que se anunciava tão promissor.

Essa política vil permanece mesmo quando há um apelo oficial contra o erotismo, como mostra a jornalista Fabiane Leite no jornal Folha de S. Paulo (“Cervejarias descumprem veto a erotismo”, 30/1/2007), ou quando parece claro para os agentes produtores, supostamente bem-informados, que a corroboração da idéia da mulher como um mero objeto de consumo, ou simples sujeito destinado ao prazer masculino, não só influencia mas também causa a exploração e o abuso domésticos e sociais da mulher, sendo uma das fontes que alimentam o ódio ao feminino – fator tão bem demonstrado e articulado pela doutora e socióloga Berenice Bento, da Universidade de Brasília, em “A cerveja e o assassinato do feminino“, também publicado na Folha e “aplaudido pela ministra da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, Nilcéia Freire, que quer dialogar com fábricas de cerveja para mudar este tipo de publicidade”

“Batatas de sofá”

Na sede pelo gozo do marketing bem-sucedido e do retorno financeiro, os profissionais e seus contratantes brincam com o perigo, lembrando uma obra de ficção em que os cientistas, tão vislumbrados pelos fantásticos benefícios imediatos que sua experiência prenuncia, não hesitam em concretizá-la, mesmo cientes da grande tragédia que se avulta com o estabelecimento de sua criação. Não estaria Lorde Henry certo pelo menos em relação aos homens?

Mesmo que confortado pela visão inteligente de alguns homens consumidores de carros e cervejas como o Marcão em “`Mulherizar´ ou não a cerveja, eis a questão“, cá, em meu próprio momento de ceticismo e delírio, me pergunto se os homens que os marqueteiros querem conquistar com seus comerciais eróticos e que irão se afirmar como ávidos consumidores de cerveja, depois de expostos a repetidas pulsações televisivas, são mais parecidos com os garotões sarados dos comerciais ou com membros de um grupo formado, em sua maioria, por “batatas de sofá”, digo couch potatoes, e outros infelizes que enchem a barriga com o líquido e o cérebro com o álcool para ficarem mais perto, em seus próprios delírios, das mulheres estúpidas e plastificadas (re)produzidas pelos comerciais.

Os sarados que conheço estão todos partindo para a água mineral. Mas essa é uma outra história.

 

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