Me chamam lobo-mau, eu sou o tal , mal, mal, mal

Lembro da voz da minha mãe cantar

O lobo uivou na serra
Auuuu
No meio da mataria
Auuuuu
Cala boca , bicho feio
Auuuuu
Que o menino quer dormir, Auuuuu

E de outra

Boi, boi , boi
Boi da cara preta
Pega essa criança
Que tem medo de careta

Nunca me lembro de ter sentido medo. Pelo contrário a música na voz macia era a certeza de sono tranqüilo. Em outra canção de ninar ela pedia ao bicho papão para sair do telhado, “deixa o meu filho dormir seu soninho sossegado”. Essas canções se repetiram gerações e já vinham sendo repetidas muitas antes.

Essa certeza de sono tranqüilo ao som de letras supostamente apavorantes provêm de fatores que asseguram, também, o sucesso dos contos de fadas. Recheados de perigos os contos, bem como as cantigas de ninar, promovem o contato com o mal, o perigo que é real, mas que nessas criações populares surgem de forma simbólica, às vezes concreta, mas que sempre seduzem e encantam crianças de várias épocas.

A voz do adulto cantando para uma criança é demonstração de afeto positivo. É cuidado com o sono. A voz materna tranqüiliza porque assegura que nenhum dos males da letra atingirá a criança. O sono é um momento de solidão, a criança muitas vezes reluta em dormir talvez por não querer se separar do ambiente doméstico ativo. Então se alguém canta para que ela adormeça, garante que terá segurança nesse período de isolamento.

Já assisti palestras onde se condenava essas cantigas por serem apavorantes, sinistras, maldosas e que poderiam gerar trauma nas crianças. Em momento algum o palestrante citou algum elemento da simbologia, de elementos da cultura, seu discurso era pautado no senso comum sobre o que é Psicologia e de alusões claras a um mal que tem como explicação motivos religiosos.

Nas cantigas de ninar os elementos associados ao mal são o lobo, o boi da cara preta, a cuca.

O lobo é um animal que oferecia muito perigo à sociedade européia durante muitos anos. Esopo tem uma fábula

O lobo faminto e a amaComo se pode ver o lobo é personagem que amedronta as comunidades há tempos. Ele é também personagem que povoa as histórias como Chapeuzinho Vermelho, Os três porquinhos e as cantigas de ninar. Tornou-se símbolo de perigo iminente oculto que surge de repente para atacar sem dó a qualquer um. É dele que surge o mito do lobisomem que em noites de lua cheia uiva anunciando seu desejo sinistro. No entanto, a sua presença nas histórias infantis, se causa medo, está cercada de uma blindagem bastante segura – a presença do adulto que , a priore, é segurança para a infância. É o adulto quem canta, quem fala do lobo-mau deixando claro que o mal está lá fora.

Esopo coletou, ou criou essas histórias na Antiguidade Clássica. A cena da fábula só foi possível pois a criança, a infância como período biológico inevitável, possui elementos imutáveis. Um deles é a necessidade de proteção. Outro a necessidade de ver no adulto autoridade e ainda a capacidade entender mensagens inconscientes constantes dos contos de fada e de outras atividades lúdicas que deveriam permear a infância. Essas mensagens garantem a percepção de uma realidade que a cerca e que é por vezes contraditória e dura. Daí essas histórias poderem auxiliar a criança na convivência com o mundo adulto. O mesmo se aplica às cantigas de ninar.

A babá de 2000 anos passados, tem a mesma atitude uma mulher do século XX ao tentar amedrontar o bebê e depois acalentá-lo utilizando a figura do lobo como o agressor e um agressor masculino. Aliás, na cultura o homem é o agressor. A mulher nas histórias infantis  para efetivar algum mal deve se transformar em bruxa, um ardil que garante poderes secretos e que a faz superior ao homem. Daí o pavor da sociedade cristã masculina contra a s bruxas na idade média e que legou-nos a misoginia atual. O homem, não. Ele é o Barba Azul, ele encarna a força como caçador e surge simbolicamente como o lobo mau (termo utilizado ainda hoje para se referir ao homem que cerceia mulheres tentando conquistá-las).

O lobo-mau surge também na letra de Roberto Carlos nos idos dos anos 60 do séc. XX:

Eu sou do tipo que não gosta de casamento
E tudo que eu faço ou falo é fingimento
Eu pego o meu carro e começo a rodar
E tenho mil garotas uma em cada lugar
Me chamam lobo mau,
me chamam lobo mau,
eu sou o tal, tal, tal, tal, tal
Eu rodo, rodo, rodo e nunca penso em parar
Se vejo um broto lindo logo vou conquistar
Todos os rapazes têm inveja de mim
Mas eu não dou bola porque sou mesmo assim
Me chamam lobo mau,
me chamam lobo mau,
eu sou o tal, tal, tal, tal, tal
Eu estou sempre por aí a rodar
Eu jogo a rede em qualquer lugar
Garotas vivem a brigar por mim
Mas nem mesmo sei porque sou mau assim
Mas sei que gosto de garotas a me rodear
Eu gosto de beijar, depois então me mandar
E quando estou rodando e não tenho onde ir
Fico até na dúvida com qual eu vou sair
Me chamam lobo mau,
me chamam lobo mau,
eu sou o tal, tal, tal, tal, tal

Pelos versos acima percebe-se que a idéia de lobo e masculino como macho alfa, mudou pouco ou nada em séculos de história. “E tudo que eu faço ou falo é fingimento” como em Chapeuzinho Vermelho para conseguir seu intento maléfico. E o fato de ser chamado de o TAL confere a esse comportamento um status de invejado pelos outros e desejado pelas mulheres. Jactando-se de um comportamento moralmente condenável, acaba por tornar-se uma espécie de ídolo e “Todos os rapazes têm inveja de mim.” O papel de cafajeste acaba sendo sedutor.

Outros animais costumam surgir em contos infantis como o gato, raposas, dragões. Alguns símbolos de astúcia, outros do mal em si.

“Há uma crença geral se que as bruxas toma a forma de raposa. Crê-se que as bruxas saem à noite e tomam forma de raposa e fazem muitas maldades sob esta forma , e depois voltam para seus corpos que permanecem deitados nas camas como mortos, nesse meio tempo. Isto pode ser provado, pois por vezes, um caçador atira numa raposa e a fere na pata e então, na manhã seguinte, a Sra. Fulana de tal aparece com um braço na tipóia…” (Franz, Marie Louise Von. A interpretação dos contos de fada. São Paulo- Ed. Paulinas -1990)

Podemos pensar que a transformação da mulher em raposa se dá pelo fato de que a raposa é um animal esperto, sagaz, capas de fugas espetaculares e de cometer atos que desorganizam a calma dos quintais (onde ela ronda a noite sem ser pega). Assim a mulher é vista pelo ocidente cristão, sagaz e capaz de confundir o homem como no mito de Adão e Eva. Embora lobo e raposa sejam caninos, o primeiro simboliza o masculino pela violência e a segunda pela astúcia, a mulher.

Cantigas de roda oferecem também um material interessante. Terezinha de Jesus é uma que traz sob a sua aparente inocência, uma mensagem oculta.

Terezinha de Jesus
De uma queda foi ao chão
Acudiram três cavaleiros
Todos três, chapéu n mão
O primeiro foi seu pai
O segundo, seu irmão
O terceiro foi aquele
Que a Tereza deu a mão

Primeiro ponto, Terezinha no diminutivo sugere uma criança, uma pequena Tereza. Essa Terezinha era de Jesus, não era de nenhum homem terreno.  Depois uma queda a levou ao chão. Uma criança que precisa de ajuda e é socorrida por três homens que, respeitosos, pois tiraram o chapéu num ato de reverência, prontamente a acudiram. O pai e o irmão foram rejeitados e ela aceitou a ajuda do terceiro que não era nem o pai nem o irmão. Essa aceitação do estranho, de alguém de fora da família sugere que Terezinha, que agora é Tereza que deu a mão, se uniu a alguém para formar um casal. Alguém que a trate como mulher e não como filha ou irmã. Talvez a queda esteja presente como um fator de crescimento, de amadurecimento. Um fato que fez com que a Terezinha se metamorfoseasse em Tereza, um nome de mulher sem estar no diminutivo, sem estar sob o julgo do poder masculino ditador de um pai ou de um irmão.

Sabemos que a cultura machista oferece ao homem as possibilidades de posse sobre a mulher. Seja ele o pai, o marido ou o irmão. Até bem pouco tempo o homem era considerado “cabeça” do casal. Com a nova configuração da família, ou a aceitação, das diversas formas de família, essa situação mudou colocando o casal em situação de igualdade de direitos. Embora o Direito tenha evoluído nesse sentido, a sociedade mostra que a visão da mulher submissa e vítima de agressão ainda é uma constante  aponto de ser preciso lei especial como a Maria da Penha. Nesse ponto a cantiga Terezinha é um avanço, pois nos mostra uma mulher que faz sua escolha livremente, que cresceu e que saiu para a vida.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

(Spamcheck Enabled)